Em 4 de setembro de 2026, completam-se dez anos da canonização de Santa Teresa de Calcutá. No dia seguinte, 5 de setembro, a Igreja celebra sua memória litúrgica, recordando uma religiosa que reconheceu Jesus Cristo nos pobres, nos enfermos, nos abandonados e nos moribundos.
Conhecida carinhosamente em todo o mundo como Madre Teresa, ela não foi apenas uma grande benfeitora da humanidade. Sua entrega aos necessitados nasceu de uma profunda união com Cristo, alimentada pela Eucaristia, pela oração e pelo desejo de responder ao grito de Jesus na Cruz: “Tenho sede”.
Quem foi Santa Teresa de Calcutá?
Santa Teresa nasceu em 26 de agosto de 1910, em Skopje, cidade que hoje é a capital da Macedônia do Norte. Filha de Nikola e Drana Bojaxhiu, de origem albanesa, recebeu no Batismo o nome de Gonxha Agnes Bojaxhiu.
A morte repentina do pai, quando Gonxha tinha aproximadamente oito anos, trouxe dificuldades econômicas para a família. Sua mãe, mulher de fé firme e grande generosidade, teve profunda influência em sua formação humana e religiosa.
Aos 18 anos, desejando tornar-se missionária, Gonxha deixou sua casa e ingressou no Instituto da Bem-Aventurada Virgem Maria, conhecido como Irmãs de Loreto, na Irlanda. Ali recebeu o nome de irmã Maria Teresa, em homenagem a Santa Teresinha do Menino Jesus.
Em dezembro de 1928, partiu para a Índia, chegando a Calcutá em 6 de janeiro de 1929. Fez seus primeiros votos em 1931 e a profissão perpétua em 24 de maio de 1937. A partir daquele momento, passou a ser chamada de Madre Teresa.
Durante muitos anos, trabalhou como professora na Escola Santa Maria, destinada à educação de meninas. Em 1944, tornou-se diretora da instituição. Segundo a biografia oficial do Mother Teresa Center, os cerca de vinte anos vividos por ela entre as Irmãs de Loreto foram marcados pela oração, pela alegria e pela dedicação às religiosas e às alunas.
O “chamado dentro do chamado”
Uma transformação decisiva ocorreu em 10 de setembro de 1946. Madre Teresa viajava de trem de Calcutá para Darjeeling, onde participaria de seu retiro anual, quando recebeu aquilo que posteriormente chamou de “chamado dentro do chamado”.
Em sua experiência interior, compreendeu que Jesus lhe pedia que deixasse a segurança do convento para servi-Lo entre os mais pobres e abandonados. Seu novo caminho deveria tornar visível o amor de Deus às pessoas que se sentiam rejeitadas, esquecidas e sem valor.
Madre Teresa não tomou uma decisão precipitada. Foram necessários quase dois anos de oração, discernimento e diálogo com seus superiores e com as autoridades da Igreja antes de receber permissão para iniciar a nova missão.
Em 17 de agosto de 1948, vestiu pela primeira vez o sari branco com bordas azuis que se tornaria conhecido em todo o mundo. Depois de realizar uma breve preparação médica com as Irmãs Médicas Missionárias, começou a visitar famílias pobres, cuidar de enfermos e socorrer pessoas abandonadas nas ruas de Calcutá.
Ela iniciava o dia diante de Jesus na Eucaristia e, levando o Rosário nas mãos, saía para encontrar e servir o mesmo Cristo presente nos necessitados.
O Devoção e Fé Blog Católico já apresentou alguns aspectos das experiências espirituais relacionadas a esse chamado. Leia também: Madre Teresa teve visões de Jesus?.
A fundação das Missionárias da Caridade
No dia 7 de outubro de 1950, a Arquidiocese de Calcutá aprovou oficialmente a nova congregação fundada por Madre Teresa: as Missionárias da Caridade.
Sua missão consistia em servir gratuitamente e de todo o coração os “mais pobres entre os pobres”. Com o passar dos anos, foram abertas casas destinadas ao acolhimento de moribundos, enfermos, crianças abandonadas e pessoas que não encontravam amparo em outros lugares.
A obra cresceu para além da Índia. Em 1965, o Papa São Paulo VI concedeu à congregação o Decreto de Louvor, favorecendo sua expansão internacional. Madre Teresa também fundou outros ramos da família das Missionárias da Caridade, incluindo comunidades masculinas, contemplativas e sacerdotais, além de movimentos para leigos, colaboradores e pessoas enfermas.
Seu trabalho tornou-se mundialmente conhecido. Em 1979, Madre Teresa recebeu o Prêmio Nobel da Paz. Ela acolheu o reconhecimento não como uma glória pessoal, mas como oportunidade para chamar a atenção para os pobres e proclamar a dignidade de cada vida humana.
Uma caridade que nascia da oração
Reduzir a vida de Madre Teresa a uma atividade filantrópica seria não compreender a origem de sua missão. Ela não se considerava simplesmente uma assistente social ou ativista. Via-se como uma religiosa consagrada a Cristo, chamada a servi-Lo nos irmãos que sofriam.
Na exortação apostólica Dilexi te, sobre o amor para com os pobres, publicada em 2025, o Papa Leão XIV apresenta Santa Teresa como “ícone universal da caridade vivida até o extremo”. O documento recorda que ela não cuidava apenas das necessidades materiais dos abandonados: anunciava-lhes que eram amados por Deus e mereciam ser tratados com respeito e dignidade.
O serviço de Madre Teresa era sustentado pela Santa Missa, pela adoração eucarística, pela meditação, pelo silêncio e pela oração do Rosário. Era diante de Jesus que ela recebia forças para voltar diariamente às ruas, tocar as feridas dos enfermos e acompanhar com ternura aqueles que estavam próximos da morte.
Essa espiritualidade ajuda a compreender que a caridade cristã não consiste apenas em oferecer coisas. É preciso acolher, ouvir, respeitar e reconhecer no outro uma pessoa criada e amada por Deus.
“Tenho sede”: o centro de sua espiritualidade
Nas capelas das Missionárias da Caridade, junto ao crucifixo, encontram-se as palavras de Jesus: “Tenho sede” (Jo 19,28).
Para Madre Teresa, essa sede não era somente a sede física de Cristo crucificado. Era também a sede de amor, de fé e de almas. Ela procurava responder ao amor de Jesus levando Sua presença às pessoas que o mundo tratava como descartáveis.
Por isso, ao atender um doente ou acolher alguém encontrado nas ruas, Madre Teresa não julgava estar fazendo apenas uma boa obra. Reconhecia naquele irmão a presença do próprio Cristo.
Na homilia da canonização, o Papa Francisco ensinou que, quando nos inclinamos diante das necessidades do próximo, “tocamos a carne de Cristo”. A vida de Santa Teresa foi uma expressão concreta dessa verdade evangélica.
A dolorosa noite espiritual de Madre Teresa
Depois de sua morte, a publicação de parte de sua correspondência espiritual revelou uma dimensão pouco conhecida de sua vida: durante décadas, Madre Teresa experimentou uma profunda sensação interior de silêncio e ausência de Deus.
Essa experiência, chamada por ela de “escuridão”, não deve ser interpretada simplesmente como perda da fé. Mesmo sem experimentar consolações sensíveis, Madre Teresa permaneceu fiel à oração, à Igreja, à sua vocação e ao serviço dos pobres.
Aquela noite interior aproximou-a ainda mais das pessoas que se sentiam abandonadas, rejeitadas e privadas de amor. Ela própria conheceu espiritualmente a dor de procurar a presença de Deus sem conseguir senti-la, mas continuou a escolher amá-Lo e servi-Lo.
Na homilia de sua beatificação, em 19 de outubro de 2003, São João Paulo II destacou que Madre Teresa encontrava na oração e na contemplação a força para dedicar-se inteiramente ao próximo. Sua perseverança mostra que a santidade não depende de sentir sempre entusiasmo ou consolação, mas de permanecer fiel mesmo na aridez e na provação.
A dignidade de cada vida humana
Madre Teresa defendia a dignidade da pessoa humana em todas as etapas da vida. Acolhia os moribundos abandonados, cuidava dos doentes e amparava crianças e famílias em situação de vulnerabilidade. Também se manifestava em defesa dos nascituros e procurava recordar aos poderosos sua responsabilidade diante da pobreza e do sofrimento.
O Papa Francisco afirmou, durante sua canonização, que Madre Teresa foi uma generosa dispensadora da misericórdia divina, disponível para acolher e defender os nascituros, os abandonados e todos aqueles que eram descartados pela sociedade.
Sua atitude não nascia de uma ideologia, mas da convicção de que cada ser humano possui uma dignidade recebida de Deus. Para ela, ninguém deveria morrer sozinho, sem receber um gesto de ternura e sem saber que sua vida tinha valor.
O milagre envolvendo um morador de Santos
A canonização de Madre Teresa possui uma ligação especial com a cidade de Santos, em São Paulo.
O segundo milagre reconhecido pela Igreja por sua intercessão envolveu o brasileiro Marcílio Haddad Andrino, então morador de Santos. Ele sofria de uma grave doença cerebral, com oito abscessos, convulsões e acúmulo de líquido no cérebro.
Em dezembro de 2008, Marcílio foi levado ao centro cirúrgico para a colocação de um dreno. Entretanto, sua condição clínica era tão grave que a operação não pôde ser realizada naquele momento.
Sua esposa, Fernanda Rocha, vinha rezando e pedindo a intercessão de Madre Teresa. Ela também havia recebido de um sacerdote uma relíquia da religiosa e continuou a rezar junto ao marido.
No dia seguinte, Marcílio apresentou uma melhora inesperada. Novos exames indicaram grande redução dos abscessos e drenagem natural do líquido. Dias depois, exames mostraram cicatrizes nos lugares anteriormente ocupados pelas lesões, embora a intervenção cirúrgica não tivesse ocorrido.
O caso foi estudado por médicos, teólogos e autoridades eclesiásticas. Depois do processo canônico, a cura foi reconhecida como inexplicável pela ciência e atribuída à intercessão de Madre Teresa. O Papa Francisco aprovou o decreto referente ao milagre em 17 de dezembro de 2015, abrindo o caminho para sua canonização. A história foi documentada pela CNBB e pelo Vatican News.
Para os católicos da Baixada Santista, esse acontecimento torna a celebração ainda mais próxima e significativa.
Dez anos da canonização de Santa Teresa de Calcutá
Madre Teresa faleceu em 5 de setembro de 1997, em Calcutá, aos 87 anos. O governo da Índia concedeu-lhe funeral de Estado, e seu túmulo, na Casa-Mãe das Missionárias da Caridade, tornou-se lugar de oração e peregrinação.
Ela foi beatificada por São João Paulo II em 19 de outubro de 2003. No dia 4 de setembro de 2016, durante o Jubileu da Misericórdia, foi canonizada pelo Papa Francisco na Praça de São Pedro.
Naquela ocasião, Francisco afirmou que talvez fosse difícil ao povo chamá-la de “Santa Teresa”, pois sua santidade era tão próxima e maternal que todos continuariam espontaneamente a chamá-la de Madre Teresa.
Dez anos depois, sua missão permanece atual. Em uma sociedade na qual tantas pessoas enfrentam abandono, solidão, pobreza e indiferença, Santa Teresa recorda que o amor cristão deve tornar-se presença concreta.
Santa Teresa no Calendário Romano Geral
Em 2025, por determinação do Papa Francisco, Santa Teresa de Calcutá foi inscrita no Calendário Romano Geral. Sua memória facultativa passou a ser celebrada por toda a Igreja no dia 5 de setembro, aniversário de sua morte.
O decreto do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos destacou a influência de sua espiritualidade em diversas partes do mundo e seu testemunho de serviço humilde. Os textos litúrgicos próprios devem integrar os livros usados na celebração da Missa e da Liturgia das Horas. A decisão foi apresentada pelo Vatican News em 11 de fevereiro de 2025.
A data de 5 de setembro também foi escolhida pela Organização das Nações Unidas como Dia Internacional da Caridade, em memória da santa e de seu serviço aos necessitados.
Cuidado com as falsas frases atribuídas a Madre Teresa
A popularidade de Santa Teresa fez com que inúmeras frases fossem atribuídas a ela sem qualquer comprovação. Algumas são adaptações de seus pensamentos; outras pertencem a diferentes autores; e várias nunca foram pronunciadas ou escritas pela santa.
Por respeito à verdade histórica, é importante verificar a procedência de uma citação antes de publicá-la. O próprio Mother Teresa Center mantém uma relação de frases falsas ou muito alteradas.
Veja também o artigo do Devoção e Fé Blog Católico: As frases falsamente atribuídas a Santa Teresa de Calcutá.
O que Santa Teresa de Calcutá nos ensina?
A vida de Santa Teresa deixa ensinamentos muito concretos para os cristãos:
- A caridade deve nascer da oração e da união com Jesus.
- Cada pessoa possui uma dignidade que não depende de sua saúde, utilidade ou condição social.
- Não é preciso esperar uma ocasião extraordinária para começar a amar.
- O sofrimento do próximo pede presença, respeito e cuidado, não apenas palavras.
- A fidelidade a Deus é possível mesmo durante a aridez espiritual.
- A santidade cresce quando reconhecemos Cristo nas pessoas que estão perto de nós, especialmente nas mais frágeis.
Nem todos serão chamados a realizar uma obra como a de Madre Teresa. Todos, porém, podem olhar com atenção para a própria família, comunidade e vizinhança e perceber quem necessita de escuta, alimento, companhia, oração ou acolhimento.
Oração a Santa Teresa de Calcutá
Santa Teresa de Calcutá,
que reconhecestes Jesus
nos pobres, nos enfermos
e nos abandonados,
intercedei por nós.
Ensinai-nos a rezar com fidelidade,
a servir com humildade
e a respeitar a dignidade
de cada vida humana.
Ajudai-nos a levar
amor onde houver solidão,
esperança onde houver sofrimento
e a presença de Cristo
onde houver abandono.
Alcançai-nos a graça
de permanecer fiéis a Deus
também nos momentos de provação
e de transformar nossa fé
em obras concretas de misericórdia.
Santa Teresa de Calcutá,
rogai por nós. Amém.
Fontes e referências
- Biografia oficial de Santa Teresa de Calcutá — Mother Teresa Center
- Homilia do Papa Francisco na canonização — Santa Sé
- Homilia de São João Paulo II na beatificação — Santa Sé
- Dilexi te: Santa Teresa e o amor pelos pobres — Santa Sé
- Inscrição de Santa Teresa no Calendário Romano Geral — Vatican News
- O milagre reconhecido para a canonização — Vatican News
- Reconhecimento do milagre ocorrido no Brasil — CNBB
- Crédito: John Mathew Smith/Kingkongphoto — Wikimedia Commons�, licença CC BY-SA 2.0. Arte adaptada pelo Devoção e Fé Blog Católico.






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