Corpo de fundadora beneditina exumado nos EUA considerado incorrupto

Peregrina venera o corpo incorrupto da irmã Wilhelmina Lancaster, OSB, em Gower (Missouri) - Foto: Kelsey Wicks/CNA

Kelsey Wicks/CNA

REDAÇÃO CENTRAL, 22 Mai. 23 / 03:53 pm (ACI).- Centenas de peregrinos foram a um mosteiro beneditino para religiosas na zona rural do estado americano do Missouri, EUA, nos últimos dias, após começarem a se espalhar pelas redes sociais notícias de que os restos mortais recentemente exumados da fundadora afro-americana da ordem contemplativa parecem estar incorruptos, quatro anos após sua morte e sepultamento em um simples caixão de madeira.
A irmã Wilhelmina Lancaster, OSB, fundou as Irmãs Beneditinas de Maria, Rainha dos Apóstolos – conhecidas por seus cantos gregorianos e álbuns de hinos católicos clássicos – em 1995, aos 70 anos, ao deixar as Irmãs Oblatas da Providência, sua comunidade de mais de 50 anos, para esta fundação.

Conhecida por sua devoção à missa tradicional em latim e sua fidelidade à contemplação beneditina e à liturgia das horas, ela morreu aos 95 anos, em 29 de maio de 2019, na solenidade da Ascensão do Senhor.

Quase quatro anos depois, na solenidade da Ascensão no rito em latim, a abadessa e as irmãs decidiram transferir corpo da irmã Wilhelmina para um lugar de descanso final dentro da capela do mosteiro, um costume antigo para fundadores e fundadoras.

Esperando encontrar ossos, as irmãs beneditinas desenterraram um caixão com um corpo aparentemente intacto, embora o corpo não estivesse embalsamado e o caixão de madeira tivesse uma rachadura no meio que deixava entrar umidade e sujeira por um período desconhecido durante esses quatro anos.

“Achamos que ela é a primeira mulher afro-americana a ser encontrada incorrupta”, disse no sábado (20) a atual abadessa da comunidade, Madre Cecilia, OSB, ao Grupo ACI, da rede de comunicação EWTN, ao qual pertence ACI Digital. Como chefe do mosteiro, era seu papel examinar primeiro o que havia no caixão.

O corpo estava coberto por uma camada de mofo que cresceu devido aos altos níveis de condensação dentro do caixão rachado. Apesar da umidade, pouco de seu corpo e nada de seu hábito se desfez durante quatro anos.

O choque foi instantâneo para a comunidade reunida para a exumação.

“Pensei ter visto um pé completamente cheio e intacto e disse: 'Não devo ter visto isso'”, disse a abadessa. “Então, olhei novamente com mais cuidado”.

Após olhar novamente, ela gritou bem alto: “Estou vendo o pé dela” e a comunidade “apenas aplaudiu”, disse.

“Quero dizer, havia apenas essa sensação de que o Senhor estava fazendo isso”, disse a abadessa. “Agora precisamos de esperança. Nós precisamos disto. Nosso Senhor sabe disso. E ela era uma prova de esperança, fé e confiança".

Um “belo sinal”

Os rumores de uma inundação abrindo o túmulo e as irmãs examinando o caixão com lanternas no meio da noite são altamente exagerados, disse a abadessa ao Grupo ACI.

“Eu tive que levar uma lanterna porque realmente não se pode ver em uma fenda escura, mesmo com a luz do sol. Achei que tinha visto um pé, mas parei porque, sabe, não é todo dia que você olha para um caixão”, conta a irmã. “Portanto, há uma espécie de hesitação – o que vou ver?”

Atentos à rachadura e à sujeira no caixão, as irmãs removeram cuidadosamente o corpo. Os restos do esqueleto deveriam pesar cerca de 9 quilos. Em vez disso, as irmãs estavam levantando o que estimavam ser um corpo pesando “entre 36 e 40 quilos”, disse a abadessa.

Desde então, as irmãs produziram uma ficha informativa que responde a perguntas sobre a exumação.

“Não apenas seu corpo estava em uma condição notável de preservação, sua coroa e buquê de flores estavam secos no lugar, a vela da profissão com a fita, seu crucifixo e rosário estavam intactos”, relatam as irmãs.

“Mais notável ainda foi a preservação completa de seu santo hábito, feito de fibras naturais, pelo qual ela tanto lutou ao longo de sua vida religiosa. O véu sintético estava perfeitamente intacto, enquanto o forro do caixão, feito de material semelhante, estava completamente deteriorado e desaparecido”.

A abadessa Cecilia enfatizou que a preservação do hábito é uma grande parte do que ela vê como milagroso, porque o hábito é “um belo sinal de que esta vida não é tudo”.

“As pessoas nos veem e pensam: ‘Oh, ela é uma freira, ela está usando isso porque está dando a vida, ela acredita em Deus. Talvez eu deva pensar em Deus'”, disse, observando que o hábito é “um sinal das coisas por vir, do sobrenatural e do nosso fim último: céu, inferno, purgatório”.

“Isso não é possível”, disse ela sobre o corpo incorruptível da irmã. “Deus é real. Ele protegeu aquele corpo e aquele hábito para reacender a nossa fé, para trazer as pessoas de volta a ela”.

O que vem em seguida?

“Você não pode pesquisar no Google ‘o que você faz com um corpo incorrupto?', disse a abadessa. “Então começamos com o básico, apenas limpando-a com água quente porque o que estava grudado em seu rosto era basicamente uma máscara de mofo espesso”, disse.

Este processo, assim como a exposição ao ar, fez com que o corpo perdesse parcialmente, mas não por completo, o seu volume e, como resultado, também ocorreu um escurecimento da pele.

Por enquanto, as irmãs confeccionaram uma máscara de cera para o rosto da irmã Wilhelmina. Um de seus olhos – ambos ainda existem, junto com cílios e sobrancelhas – estava afundado pelo peso da sujeira dentro do caixão. As irmãs também revestiram suas mãos com cera.

Segundo o informativo das religiosas, o corpo ficará na capela das irmãs até 29 de maio, quando planejam uma procissão do rosário. Após a procissão, o corpo da irmã Wilhelmina será envolto em vidro perto do altar de são José na capela para “receber seu crescente número de devotos”.

Peregrinos católicos já estão chegando

Desde que mensagens de texto e postagens nas mídias sociais começaram a circular na semana passada com fotos do corpo incorrupto, centenas de peregrinos já viajaram para visitar a irmã incorrupta, às vezes a horas de distância em Kentucky e Illinois, ou mais perto em Missouri, para rezar em frente do corpo e conhecer melhor esta mulher que muitos sentem ser de profunda santidade.

“Foi lindo”, disse Mary Lou Enna, de 86 anos, uma peregrina que veio com seu filho e a esposa dele, de Kansas City, a cerca de 45 minutos de carro. “No começo, foi um pouco irreal. Mas então, enquanto eu olhava para ela, as lágrimas começaram a cair e eu sabia que era real e muito, muito significativo”.

“Sei que isso acontece muito na Europa por meio da Igreja, mas era apenas algo que eu queria presenciar”, disse.

Royce Hood apresenta um programa de rádio católico em Illinois. Ele e sua esposa Elise vieram de Peoria com seus seis filhos em um carro para ver o que estava acontecendo. “Sinto que as pessoas estão pensando ‘Uau, precisamos disso agora'”, disse Royce.

“Há tanto caos e escuridão no mundo. Acho que Deus está nos dando pequenas graças para nos lembrar do que está por vir e do que nos espera”.

“Amamos nossa fé”, acrescentou a esposa de Hood, Elise. “Parecia irreal vir e ver, estar e tocar uma irmã que é incorruptível. Que bênção ter essa oportunidade e que nossos filhos também vejam e testemunhem isso, um grande testemunho de nossa fé”.

A filha Ava, de 9 anos, diz que ficou maravilhada. Seu irmão Augustine concordou.

“Eles se ajoelharam por um longo tempo e apenas rezaram”, disse a mãe, que acrescenta: “Ainda estou com calafrios. Tudo o que praticamos em nossa vida de fé diária podemos sentir e ver aqui”.

A visão não foi menos surpreendente para Rick Enna, outro peregrino de Kansas City, Missouri.

“Foi um milagre ver seu corpo em perfeitas condições após seu corpo ficar em uma cova por quase quatro anos”, comentou Enna, de 61 anos.

“Em um mundo agora que está realmente lutando com tantos falsos deuses, estamos vendo vislumbres de evidências de que Deus está lá”, disse ele. “Aqueles de nós que são fiéis não precisam de evidências, mas quando vemos evidências, então sabemos disso”.

“Você não vê isso com muita frequência”, acrescentou.

Tanya Schultz e sua filha rezam diante do corpo incorrupto exumado da irmã Wihelmina Lancaster em Gower, Missouri (EUA). - Foto: Joe Schultz/CNA

Joe e Tanya Schultz e seu filho dirigiram oito horas e meia de Louisville, Kentucky, em uma caravana com parentes de Springfield, Illinois, para rezar diante do corpo da irmã Wilhemina.

“É um grande milagre”, disse Tanya Schultz, que estava tocando rosários e escapulários e a mão de seu bebê no corpo.

“É crível e inacreditável ao mesmo tempo”, acrescentou seu marido Joe ao ver o corpo.

“Milagres existem e há razões para isso, mas é... emocionante”, disse ele.

“Sendo ela uma freira tradicional neste tempo em que o tradicional é perseguido, queríamos estar presentes para isso e pedir sua intercessão na igreja, pois ela provavelmente tem grandes poderes de intercessão por nós, nossa família, nossa vocação”.

Através dos olhos de sua fé católica, a abadessa vê na preservação do corpo da irmã Wilhelmina essa mesma mensagem. “O Céu é real. A ressurreição é real. Especialmente nestes tempos na Igreja e no mundo”, disse.

“Tenha esperança”, implorou. “Deus ainda está lá. Ele ainda ouve nossas orações. Ele ainda escuta. Ele ainda nos ama.”

Embora a Igreja não tenha considerado o caso da irmã Wilhelmina como milagroso e o caso ainda não tenha sido considerado incorruptível, nem haja uma causa para a canonização  da fundadora, tanto as irmãs de sua comunidade quanto visitantes atraídos para o mosteiro concordam que algo fora do curso normal da natureza está acontecendo em Gower, Missouri.

“Tenha fé”, concluiu a abadessa Cecília. “A vida não termina quando damos nosso último suspiro: ela começa”.

“E este é o tipo de milagre que nos lembra disso”.

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