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terça-feira, 13 de agosto de 2019

Terra Santa: fundamentalismo religioso atira os cristãos para a margem da sociedade


AIS | Ago 13, 2019

A maioria dos cristãos na Terra Santa são palestinianos. Isto quer dizer que vivem nas mesmas condições que os palestinianos muçulmanos

Pierbattista Pizzaballa passou mais de três décadas na Terra Santa. Em 2016, este franciscano foi nomeado Arcebispo e Administrador Apostólico do Patriarcado Latino de Jerusalém. Durante uma recente visita a sede internacional da Fundação AIS (ACN), o Arcebispo explicou como as decisões políticas internacionais intensificam o conflito na Terra Santa e por que a Igreja confia mais na eficácia dos pequenos passos.

Fundação AIS: Qual a situação dos cristãos na Terra Santa?

D. Pierbattista Pizzaballa: Costuma-se dizer, com alguma frequência, que há três grupos de pessoas que vivem no território que chamamos Terra Santa: israelitas, palestinianos e cristãos. Mas os cristãos não são um “terceiro povo”. Os cristãos pertencem ao povo no meio do qual vivem. Como cristãos não temos reivindicações territoriais. Para um judeu ou um muçulmano não há nenhum perigo encontrar-se com um cristão. No entanto, para os cristãos as condições de vida são mais difíceis, por exemplo, têm muita dificuldade em arranjar trabalho ou arrendar casas.

Isto significa que os cristãos da Terra Santa têm a sua liberdade religiosa limitada?

Há que fazer uma distinção entre a liberdade de culto e a liberdade de consciência. Existe liberdade de culto: os cristãos podem celebrar e organizar a sua vida comunitária. A liberdade de consciência significa que qualquer crente pode expressar-se livremente e que os membros de outras religiões podem decidir livremente se querem ser cristão. Isto já é muito mais complicado.

A política teve sempre um papel muito importante na Terra Santa. Se alguém decide visitar um determinado lugar isto pode tornar-se rapidamente um assunto político. Por exemplo, os cristãos de Belém gostariam de visitar e rezar na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. Mas, muitas vezes, tal não é possível porque precisam de uma autorização. Então, isto é uma questão de liberdade religiosa ou é simplesmente um assunto político? Não podem visitar a Igreja do Santo Sepulcro apenas porque são palestinianos? Tudo esta interligado.

Recentemente, os Estados Unidos mudaram a sua embaixada para Jerusalém. Até que ponto se sentem as consequências desta medida política?

Na vida quotidiana não mudou praticamente nada. No entanto, a mudança da embaixada dos EUA é um beco sem saída. Todas as questões que afetam Jerusalém e que não abrangem as duas partes – israelita e palestiniana – provocam uma profunda divisão a nível político. E isto é precisamente aquilo que tem ocorrido.
Depois da mudança da embaixada dos EUA, os palestinianos cortaram todas as relações com o governo deste país e paralisaram completamente as negociações entre Israel e os Territórios Palestinianos, que já eram muito lentas.

A nova escalada faz com que os jovens se tornem mais radicais, especialmente os palestinianos. Tudo isto chega a afetar os cristãos?

Há palestinianos que pertencem a grupos fundamentalistas; mas também há muitos que recusam a violência. A maioria dos cristãos na Terra Santa são palestinianos. Isto quer dizer que vivem nas mesmas condições que os palestinianos muçulmanos. O fundamentalismo religioso atira claramente os cristãos para a margem da sociedade. Assim, experimentamos a cooperação e a solidariedade, mas também a exclusão e a discriminação.

Um outro problema é o aumento da emigração dos cristãos…
A emigração não é um fenômeno de massas, caso contrário, os cristãos teriam desaparecido há muito tempo da Terra Santa. Acontece a conta gotas. Todos os anos, durante as minhas visitas às paróquias os sacerdotes dizem-me: “este ano perdemos duas ou três famílias”.

A Igreja pode fazer alguma coisa no meio deste complexa situação política?

Os cristãos representam cerca de 1% da população. Portanto não podemos exigir ter o mesmo peso político que os outros grupos. Mas claro, a Igreja tem relações sólidas a nível mundial. Ainda por cima, aqui vêm milhões de cristãos peregrinos de todo o mundo. A nossa missão é transmitir às pessoas que existe uma forma cristã de viver neste país. Há uma maneira cristã de viver com este conflito. Este não é o momento para grandes gestos. A Igreja deve procurar estabelecer pequenas relações, construir pequenas pontes.

A visita do Papa Francisco à Terra Santa, em 2014, influenciou a situação política e as relações entre os cristãos católicos e ortodoxos?

As visitas dos Papas são pedras importantes que vão sendo colocadas no caminho da paz, ainda que não provoquem uma grande mudança. No entanto, no que se refere ao ecumenismo, a situação é diferente: com a sua visita, o Papa Francisco deu continuidade ao famoso encontro entre o Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras em Jerusalém, em 1964. Neste contexto, a visita do Papa Francisco e sobretudo a oração ecumênica na Igreja do Santo Sepulcro, foi um ponto decisivo e palpável na relação entre cristãos católicos e ortodoxos.

A Fundação AIS está ligada aos cristãos da Terra Santa desde há muitos anos. Em Jerusalém, por exemplo, a AIS financia os cursos inter-religiosos “Construir o perdão, superando o ódio” onde participam centenas de cristãos, judeus e muçulmanos. Pode dizer-nos alguma coisa sobre esta iniciativa?

Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à Fundação AIS por estar a fazer tantas coisas pela Terra Santa. Apoia muitos projetos, inclusive os cursos organizados no Rossing Center. Daniel Rossing era judeu e estava convencido de que Jerusalém em particular devia ser o lugar onde todas as religiões se sentissem em sua própria casa. Muitos dos jovens que participam nestes seminários aplicam o que aprendem na sua própria vida profissional. Deste modo, a religião, que na Terra Santa costuma ser motivo de divisão, converte-se num elemento de união.

(Fundação AIS | ACN Portugal)

Fonte: Aleteia



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