No dia 6 de setembro, o calendário dos santos recorda São Zacarias, um dos grandes profetas do Antigo Testamento. Ele viveu cerca de cinco séculos antes de Cristo e exerceu sua missão em um dos períodos mais difíceis da história do povo de Israel: o retorno do exílio da Babilônia e a reconstrução de Jerusalém e de seu Templo.
Por meio de visões, exortações e promessas de esperança, Zacarias chamou o povo à conversão e anunciou um futuro no qual Deus voltaria a habitar no meio de seus filhos. O livro bíblico que traz seu nome contém algumas das passagens do Antigo Testamento mais relacionadas, no Novo Testamento, à vida, à Paixão e à missão de Jesus Cristo.
Em 2026, o dia 6 de setembro coincide com o 23º Domingo do Tempo Comum. Por isso, a liturgia dominical tem precedência, mas a data também nos permite conhecer e honrar o testemunho deste profeta, recordado pelo Vatican News como mestre da penitência e mensageiro das promessas de Deus.
Quem foi São Zacarias, profeta?
Zacarias foi um profeta do Reino de Judá. A Sagrada Escritura o apresenta como filho de Baraquias e neto de Ido:
“A palavra do Senhor foi dirigida ao profeta Zacarias, filho de Baraquias, filho de Ido.”
(Zc 1,1)
Seu nome vem do hebraico e significa “o Senhor se lembra” ou “Deus se recordou”. Esse significado combina profundamente com sua missão: recordar ao povo que Deus não havia esquecido a Aliança, mesmo depois dos pecados, da destruição de Jerusalém e do sofrimento do exílio.
Zacarias é chamado de “profeta menor”, não por ser menos importante, mas porque seu livro é mais curto do que os livros dos chamados Profetas Maiores, como Isaías, Jeremias e Ezequiel. Na organização tradicional da Bíblia, Zacarias é o penúltimo dos doze Profetas Menores, vindo antes de Malaquias.
Ele foi contemporâneo do profeta Ageu. Os dois são mencionados no Livro de Esdras como aqueles que, em nome de Deus, incentivaram os judeus a reconstruir o Templo de Jerusalém (cf. Esd 5,1; 6,14).
Um profeta em meio às ruínas
O povo de Judá havia passado décadas no exílio da Babilônia. Quando parte dos exilados finalmente retornou a Jerusalém, encontrou uma cidade marcada pela destruição. A reconstrução do Templo começou, mas enfrentou dificuldades, oposição e desânimo.
Foi nesse contexto que Zacarias iniciou seu ministério, no segundo ano do reinado de Dario I, por volta de 520 a.C. A datação aparece no próprio livro e é confirmada pela introdução bíblica da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos.
Zacarias ajudou o povo a compreender que não bastava reconstruir paredes, altares e edifícios. Era necessário, antes de tudo, reconstruir a fidelidade a Deus.
Sua primeira mensagem foi um chamado direto à conversão:
“Voltai para mim, e eu voltarei para vós.”
(Zc 1,3)
Deus continuava fiel às suas promessas, mas esperava que o povo abandonasse os pecados e retomasse o caminho da Aliança.
As visões de Zacarias
A primeira parte do Livro de Zacarias apresenta uma série de visões simbólicas. Nelas aparecem cavaleiros, chifres, um homem com uma corda de medir, um candelabro, oliveiras, um rolo que voa e outros sinais.
Essas imagens não foram dadas para alimentar curiosidades sobre o futuro. Elas transmitiam uma mensagem espiritual muito concreta: Deus ainda governava a história, Jerusalém seria restaurada, o mal seria julgado e o povo deveria perseverar.
Uma das visões mais conhecidas está relacionada a Zorobabel, governador de Judá e responsável pela reconstrução do Templo. Diante de uma missão que parecia maior do que suas forças, Deus declarou:
“Não pelo poder nem pela força, mas pelo meu Espírito.”
(Zc 4,6)
Essa palavra continua atual. A obra de Deus não depende apenas da capacidade humana, do prestígio ou dos recursos materiais. Ela se realiza pela ação do Espírito Santo naqueles que confiam no Senhor e permanecem fiéis.
A reconstrução exterior deveria começar no coração
Zacarias não separava a fé da maneira de tratar o próximo. Para ele, a verdadeira renovação religiosa exigia justiça, misericórdia e compaixão.
O profeta pediu que o povo praticasse a justiça verdadeira, tratasse os irmãos com bondade e não oprimisse a viúva, o órfão, o estrangeiro e o pobre (cf. Zc 7,9-10). Também ensinou que cada pessoa deveria falar a verdade e promover julgamentos que conduzissem à paz (cf. Zc 8,16-17).
Assim, a reconstrução do Templo não poderia ser apenas uma obra de pedra. O povo também precisava reconstruir a comunhão, a honestidade, a solidariedade e a fidelidade à Palavra de Deus.
Uma observação importante sobre o Livro de Zacarias
Tradicionalmente, todo o livro bíblico é apresentado sob o nome do profeta Zacarias. Os estudos bíblicos, entretanto, observam diferenças de época, linguagem e estilo entre suas duas grandes partes.
Os capítulos 1 a 8 estão diretamente ligados à atuação histórica de Zacarias no final do século VI a.C. Já os capítulos 9 a 14 reúnem oráculos posteriores, preservados e transmitidos dentro da tradição profética associada ao seu nome.
Essa constatação não diminui a inspiração da Sagrada Escritura. O livro inteiro pertence ao cânon bíblico e é recebido pela Igreja como Palavra de Deus. Ela apenas nos ajuda a distinguir o profeta histórico do processo pelo qual o livro chegou à sua forma definitiva.
O Catecismo ensina que os cristãos leem o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado, sem retirar desses textos seu valor próprio dentro da história da salvação (cf. Catecismo da Igreja Católica, 121-130).
As profecias que apontam para Jesus Cristo
Dentro do Livro de Zacarias encontramos passagens que os Evangelhos e a tradição cristã reconhecem como relacionadas ao Messias.
O Rei humilde montado em um jumento
Zacarias anunciou a chegada de um rei justo, vitorioso e humilde, que entraria em Jerusalém montado em um jumentinho (cf. Zc 9,9-10).
Os quatro Evangelhos relacionam essa profecia à entrada de Jesus em Jerusalém, celebrada pela Igreja no Domingo de Ramos. Cristo não entrou na Cidade Santa montado em um cavalo de guerra, como os conquistadores, mas sobre um animal simples, apresentando-se como o Rei da paz.
O Papa Francisco recordou essa profecia na exortação apostólica Evangelii Gaudium, mostrando que Zacarias convidava o povo a se alegrar diante da chegada do Rei humilde.
As trinta moedas de prata
Em outra passagem, o trabalho do pastor é desprezado e avaliado em trinta moedas de prata (cf. Zc 11,12-13).
Na narrativa da Paixão, Judas Iscariotes recebe a mesma quantia para entregar Jesus. Depois, arrependido, devolve as moedas, que acabam relacionadas à compra do campo do oleiro (cf. Mt 26,14-16; 27,3-10).
Aquele que foi traspassado
Zacarias também apresenta a misteriosa figura de alguém que foi traspassado e por quem o povo choraria profundamente (cf. Zc 12,10).
O Evangelho de São João aplica essa passagem a Jesus crucificado, cujo lado foi aberto pela lança do soldado:
“Olharão para aquele que traspassaram.”
(Jo 19,37)
Desse modo, a Igreja reconhece na Paixão de Cristo a plenitude de uma esperança que atravessou os séculos.
O pastor ferido e as ovelhas dispersas
O livro ainda fala de um pastor que seria ferido, levando à dispersão das ovelhas (cf. Zc 13,7).
Na noite em que foi entregue, Jesus aplicou essas palavras a si mesmo e à fuga dos discípulos:
“Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho se dispersarão.”
(Mt 26,31)
As referências mostram como o Livro de Zacarias ocupa um lugar importante na compreensão cristã da missão de Jesus: o Rei humilde, o Bom Pastor rejeitado e aquele que foi traspassado para nossa salvação.
São Zacarias não é o pai de São João Batista
Existem vários personagens chamados Zacarias na Bíblia. O profeta recordado em 6 de setembro não deve ser confundido com São Zacarias, sacerdote e esposo de Santa Isabel, que aparece no primeiro capítulo do Evangelho de São Lucas.
O profeta viveu por volta de 520 a.C. Já o pai de São João Batista viveu no período imediatamente anterior ao nascimento de Jesus.
O Devoção e Fé Blog Católico já possui artigos sobre São Zacarias e Santa Isabel, pais de São João Batista. Este artigo, porém, apresenta o profeta do Antigo Testamento, filho de Baraquias e neto de Ido, associado ao livro bíblico que leva seu nome.
O que sabemos sobre a morte de São Zacarias?
A Bíblia não informa como ou exatamente quando o profeta Zacarias morreu. Existem tradições posteriores sobre seus últimos anos e seu local de sepultamento, mas elas não possuem a mesma segurança histórica dos dados encontrados nas Escrituras.
Por isso, é mais prudente não confundir este profeta com outros personagens bíblicos chamados Zacarias nem apresentar como fato comprovado aquilo que pertence somente a tradições posteriores.
Sua verdadeira herança está preservada em sua mensagem: o chamado à conversão, a confiança na ação do Espírito, o compromisso com a justiça e a esperança na vinda do Messias.
Por que a Igreja venera como santos os profetas do Antigo Testamento?
A santidade não começou somente depois do nascimento de Jesus. Todos os justos foram alcançados pela graça de Deus e orientados para a salvação realizada plenamente por Cristo.
O Catecismo da Igreja Católica afirma que os patriarcas, os profetas e outras grandes figuras do Antigo Testamento foram e continuarão sendo venerados como santos nas tradições litúrgicas da Igreja (cf. CIC 61).
São Zacarias pertence a essa grande multidão de homens e mulheres que confiaram nas promessas de Deus e prepararam o caminho para a chegada do Salvador.
O que São Zacarias ensina aos cristãos de hoje?
A vida e a mensagem do profeta nos deixam ensinamentos muito atuais:
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Deus não abandona seu povo, mesmo nos períodos de sofrimento e aparente ruína.
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Toda reconstrução exterior precisa ser acompanhada por uma verdadeira conversão do coração.
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A obra de Deus não se realiza somente pela força humana, mas pela ação do Espírito Santo.
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A fé autêntica deve produzir justiça, misericórdia, verdade e cuidado com os mais frágeis.
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Não devemos desprezar os pequenos começos, pois Deus pode fazer nascer grandes obras daquilo que parece insignificante.
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Jesus é o Rei humilde e pacífico anunciado pelas Escrituras, que vence não pela violência, mas pelo amor e pela entrega de sua própria vida.
Quando tudo parece destruído, Zacarias nos recorda que Deus ainda pode reconstruir. Quando nos sentimos fracos, ele nos ensina a confiar no Espírito. E quando o futuro parece incerto, suas profecias nos conduzem a Cristo, cumprimento das promessas e esperança de toda a humanidade.
Oração a São Zacarias, profeta
São Zacarias,
profeta fiel e mensageiro da esperança,
vós que chamastes o povo à conversão
e o ajudastes a confiar novamente nas promessas de Deus,
rogai por nós.
Ensinai-nos a permanecer firmes
quando encontrarmos ruínas, dificuldades e desânimo.
Ajudai-nos a compreender
que as obras de Deus não se realizam apenas pela força humana,
mas pelo poder do Espírito Santo.
Alcançai-nos um coração verdadeiro,
misericordioso e atento aos mais necessitados.
Conduzi-nos a Jesus Cristo,
o Rei humilde anunciado pelas Escrituras,
o Bom Pastor que entregou a vida por seu rebanho
e o Salvador que foi traspassado por nossos pecados.
Que jamais percamos a esperança
e permaneçamos fiéis ao Senhor
em todos os dias de nossa vida.
São Zacarias, profeta, rogai por nós!
Amém.






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