Perdão: difícil de entender e mais difícil de viver
23º Domingo do Tempo Comum - Ano A
Evangelho de João 3,16-18
16Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito.
REFLEXÃO
O Evangelho deste domingo está dentro do capítulo que trata do “discurso comunitário”, ou seja, das orientações do Mestre aos seus discípulos. O texto pode revelar como as comunidades cristãs excluem pessoas com muita facilidade. O esforço da comunidade deve caminhar sempre no sentido de “salvar e recuperar” a pessoa. A comunidade tem poder para tomar a decisão final, mas isso não pode ser na base do autoritarismo, e sim com amor e compreensão. Em geral, é mais fácil “excluir que incluir”. Devemos reconhecer que ninguém é perfeito e não é pelo fato de sermos cristãos que estamos livres de cometer deslizes. Jesus nos desafia a sentirmo-nos responsáveis uns pelos outros. A proposta da “correção fraterna” é válida para a comunidade cristã, para as famílias e para qualquer grupo de convivência.
(Dia a Dia com o Evangelho 2026 - PAULUS)[1]
Coleta
Ó Deus, olhai com bondade os que redimistes e adotastes como filhos e filhas, e concedei aos que creem no Cristo a verdadeira liberdade e a herança eterna. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
Perdão: difícil de entender e mais difícil de viver
O Antigo Testamento não conheceu o perdão gratuito. Foi Jesus quem o ensinou pela primeira vez e o fez norma de vida. Tanto que é uma das características do cristianismo. O perdão que o Antigo Testamento conhecia era o da vingança. No início, a ofensa podia ser vingada por outra que fosse 77 vezes mais forte que a falta cometida (Gn 4,24). Mais tarde, deu-se um grande passo à frente, adotando a lei do talião: elas por elas, dente por dente; a vingança não podia ser maior que a ofensa. No Sermão da Montanha, Jesus lembrou essa norma jurídica (Mt 5,38) e a declarou insuficiente e superada.
Jesus deu um salto tão grande à frente, que até hoje muitos não o compreendem e, na prática, não o seguem. Jesus instituiu o perdão gratuito: devemos perdoar sem olhar o tamanho da ofensa nem a grandeza da pessoa que ofendeu, e sem exigir reparação; sempre, sem exceção. Jesus baseou essa doutrina no fato de o Pai do Céu nos perdoar (Mt 5,48) e no desejo inato de cada um ver seus pecados perdoados por Deus (Mt 6,14-15). O perdoar faz parte do homem novo. O Apóstolo Paulo disse lindamente aos Coríntios: “Deus nos reconciliou por Cristo e nos confiou o ministério da reconciliação. Deus, por Cristo, reconciliou o mundo, não levando em conta os pecados dos homens. Ele pôs em nossos lábios a mensagem da reconciliação” (2Cor 5,18-19). Os cristãos, no meio do mundo, poderiam ser chamados de ‘mensageiros do perdão’. A Igreja deveria ser no mundo um exemplo, um instrumento de perdão e de reconciliação. O próprio Jesus tornou-se o modelo de quem sabe perdoar gratuitamente. Bastaria lembrar seu comportamento na Cruz, depois de tanta traição, injustiças e condenação à morte: “Pai, perdoai-lhes” (Lc 23,34). E ao ladrão arrependido não lhe atirou em rosto os crimes passados contra a sociedade, mas disse simplesmente: “Hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23,43).
FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFM, entrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.[2]
Fontes:
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