No dia 22 de agosto, a Igreja Católica celebra a memória de Nossa Senhora Rainha, contemplando a Virgem Maria glorificada junto de seu Filho e reconhecida como Rainha do Céu e da Terra.
A celebração acontece exatamente oito dias depois da Solenidade da Assunção de Nossa Senhora, celebrada em 15 de agosto. Essa proximidade não é por acaso: depois de contemplar Maria elevada de corpo e alma à glória celeste, a Igreja a contempla participando da realeza de Cristo.
Mas por que chamamos Maria de Rainha? Onde encontramos as raízes dessa devoção? E o que significa a realeza de Nossa Senhora para os cristãos?
Por que Nossa Senhora é chamada de Rainha?
A realeza de Maria não existe separadamente da realeza de Jesus. Cristo é o verdadeiro Rei, e Maria é Rainha porque está profundamente unida ao seu Filho e à sua obra de salvação.
No Evangelho da Anunciação, o anjo Gabriel anuncia a Maria a respeito de Jesus:
“O Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; ele reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.”
(Lc 1,32-33)
Jesus é, portanto, o Rei messiânico prometido. Maria, sendo sua Mãe, ocupa um lugar singular na história da salvação.
Essa realidade também recorda uma antiga tradição bíblica: no reino de Judá, a mãe do rei possuía uma posição especial e era conhecida como rainha-mãe. No Primeiro Livro dos Reis, vemos Betsabé, mãe do rei Salomão, recebendo um lugar de honra ao lado do filho (cf. 1Rs 2,19).
À luz de Cristo, Filho de Davi e Rei eterno, a tradição cristã reconheceu em Maria, Mãe do Rei, aquela que participa de modo singular de sua glória.
A mulher coroada com doze estrelas
Uma das imagens bíblicas mais associadas à realeza de Maria encontra-se no livro do Apocalipse:
“Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas.”
(Ap 12,1)
A Igreja reconhece nessa Mulher uma rica imagem que remete ao povo de Deus e que, na tradição cristã, também foi contemplada em relação à Virgem Maria, Mãe do Messias.
Por isso, ao longo dos séculos, a arte cristã passou a representar Nossa Senhora coroada, cercada de estrelas e junto de seu Filho.
Uma Rainha que foi a humilde serva do Senhor
A realeza de Maria possui uma característica profundamente cristã: ela não é uma realeza de poder terreno, riqueza ou domínio.
Maria é a mulher que respondeu ao anúncio do anjo dizendo:
“Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra.”
(Lc 1,38)
Aquela que a Igreja chama de Rainha é justamente aquela que se declarou serva.
Essa aparente contradição revela a lógica do Evangelho. No Reino de Deus, grande é aquele que serve. O próprio Jesus ensinou que veio “não para ser servido, mas para servir” (cf. Mt 20,28).
Maria reina porque pertence inteiramente a Cristo. Sua coroa é inseparável de sua humildade, de sua fidelidade e de seu “sim” a Deus.
A instituição da festa de Nossa Senhora Rainha
A festa de Nossa Senhora Rainha foi instituída pelo Papa Pio XII, em 1954, por meio da encíclica Ad Caeli Reginam — “À Rainha do Céu”.
Naquele ano, a Igreja celebrava o Ano Mariano, e Pio XII quis recordar de maneira especial a antiga tradição cristã que reconhece a dignidade régia da Mãe de Deus.
Inicialmente, a festa foi estabelecida para o dia 31 de maio.
Posteriormente, com a reforma do Calendário Romano, a celebração foi transferida para 22 de agosto, oitava da Assunção, tornando ainda mais clara a ligação entre os dois mistérios: Maria é elevada à glória celeste e contemplada como Rainha junto de Cristo.
Uma devoção muito mais antiga que a festa litúrgica
Embora a celebração litúrgica tenha sido instituída no século XX, chamar Maria de Rainha é uma tradição muito antiga na Igreja.
Durante séculos, os cristãos dirigiram-se à Virgem com títulos como:
Rainha do Céu, Rainha dos Anjos, Rainha dos Apóstolos, Rainha dos Mártires, Rainha de todos os Santos e Rainha da Paz.
Essas invocações estão presentes na tradicional Ladainha de Nossa Senhora, também conhecida como Ladainha Lauretana.
Outra antiga oração mariana começa justamente com a saudação:
“Salve, Rainha, Mãe de misericórdia...”
A Salve-Rainha tornou-se uma das orações marianas mais conhecidas e amadas da tradição católica.
Também no tempo pascal a Igreja canta:
“Rainha do Céu, alegrai-vos, aleluia!”
É o Regina Caeli, outra testemunha da antiga tradição de chamar Maria de Rainha.
Maria Rainha sempre nos conduz a Jesus
É importante compreender que a devoção a Nossa Senhora nunca termina em Maria.
A verdadeira devoção mariana sempre conduz a Cristo.
Na passagem das Bodas de Caná, Maria pronuncia palavras que permanecem como um verdadeiro programa espiritual para todos os cristãos:
“Fazei tudo o que Ele vos disser.”
(Jo 2,5)
É assim que Maria exerce sua maternidade espiritual: apontando para Jesus.
A Rainha do Céu não toma para si a glória que pertence a Deus. Pelo contrário, toda a sua vida proclama:
“Minha alma glorifica ao Senhor.”
(Lc 1,46)
Nossa Senhora Rainha e Cristo Rei
Não podemos compreender plenamente Nossa Senhora Rainha sem olhar para Cristo Rei.
Jesus reina pela verdade, pelo amor e pela entrega de sua própria vida. Sua coroa, antes da glória da Ressurreição, foi uma coroa de espinhos.
Maria percorreu o mesmo caminho de fidelidade. Esteve junto do Filho desde Belém até o Calvário. Permaneceu aos pés da Cruz quando tantos haviam partido.
Por isso, a imagem de Maria coroada no Céu nos recorda que a glória cristã passa pela fidelidade a Deus.
A humilde jovem de Nazaré, que disse “sim” ao Senhor, é aquela que todas as gerações chamariam bem-aventurada.
Rainha e Mãe
Talvez um dos aspectos mais belos desta celebração seja recordar que aquela que veneramos como Rainha continua sendo chamada pela Igreja de Mãe.
Não contemplamos uma rainha distante.
Contemplamos a Mãe de Jesus, que intercede pelos filhos de Deus e nos ensina a permanecer junto de Cristo.
Por isso, os cristãos recorrem a Nossa Senhora com confiança, especialmente nos momentos de sofrimento, incerteza e necessidade.
Quando dizemos “Salve, Rainha, Mãe de misericórdia”, unimos justamente esses dois títulos: Rainha e Mãe.
O que Nossa Senhora Rainha nos ensina?
A festa de Nossa Senhora Rainha nos recorda que a verdadeira grandeza está na fidelidade a Deus.
Maria não procurou honras para si. Viveu escondida, simples e obediente à vontade divina.
E justamente aquela que se fez pequena diante de Deus foi exaltada por Ele.
Sua vida nos ensina a servir sem buscar reconhecimento, confiar mesmo quando não compreendemos todos os caminhos do Senhor, permanecer junto de Jesus nas alegrias e nas cruzes e colocar toda a nossa esperança em Deus.
No dia de Nossa Senhora Rainha, podemos pedir uma graça muito especial:
que Maria reine em nossos corações somente para que Jesus seja cada vez mais amado, conhecido e seguido.
Oração a Nossa Senhora Rainha
Ó Maria,
Mãe de Deus e nossa Mãe,
Rainha do Céu e da Terra,
voltamos hoje para vós o nosso coração.
Vós que fostes a humilde serva do Senhor
e permanecestes fiel ao vosso Filho
desde Nazaré até o Calvário,
ensinai-nos a dizer “sim” à vontade de Deus.
Rainha da Paz,
intercedei pelas famílias,
pelos que sofrem,
pelos que perderam a esperança
e por todos aqueles que necessitam
da misericórdia do Senhor.
Rainha dos Anjos e dos Santos,
conduzi-nos sempre a Jesus.
Que, seguindo vosso exemplo de humildade,
fé e amor,
possamos permanecer fiéis a Cristo
todos os dias de nossa vida.
Nossa Senhora Rainha,
rogai por nós!
Amém.
Nossa Senhora Rainha, rogai por nós e conduzi-nos sempre a Jesus, Rei do Universo! 👑🙏🏼






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