Celebrado pela Igreja em 19 de julho, São Símaco foi Papa entre os anos 498 e 514, em um dos períodos mais conturbados da história da Igreja em Roma. Seu pontificado foi marcado por disputas políticas, acusações, perseguições e por uma divisão interna conhecida como Cisma Laurenciano.
Mesmo diante de graves conflitos, São Símaco permaneceu firme na defesa da liberdade da Igreja, da autoridade do legítimo sucessor de São Pedro e da integridade da fé católica.
Quem foi São Símaco?
Símaco nasceu na ilha da Sardenha, provavelmente em uma família de origem pagã, e recebeu o Batismo em Roma. Com o passar dos anos, ingressou no clero romano, tornando-se diácono durante o pontificado do Papa Anastásio II.
Após a morte de Anastásio II, em novembro do ano 498, Símaco foi escolhido pela maioria do clero romano para ocupar a Cátedra de São Pedro.
Entretanto, no mesmo dia, outro grupo, formado por uma parcela minoritária do clero e apoiado por influentes membros da aristocracia romana, escolheu o arquipresbítero Lourenço — também chamado Laurêncio — como Papa.
Assim, Roma passou a ter dois homens reivindicando a autoridade pontifícia: Símaco, eleito pela maioria, e Lourenço, apoiado por uma forte facção política. Começava o chamado Cisma Laurenciano.
O que é um cisma?
A palavra “cisma” significa separação ou ruptura da comunhão eclesial.
Um cisma acontece quando um grupo de fiéis, clérigos ou bispos se recusa a reconhecer a autoridade legítima da Igreja ou rompe a comunhão com o Papa e com aqueles que permanecem unidos a ele.
No caso enfrentado por São Símaco, a divisão não teve início principalmente por uma discussão doutrinal, mas por uma disputa sobre quem havia sido legitimamente eleito Papa.
Por isso, esse episódio ficou conhecido como Cisma Laurenciano, nome derivado de Lourenço, o rival de Símaco.
Por que dois Papas foram eleitos?
Naquela época, Roma estava sob o governo dos ostrogodos, e a eleição de um Papa envolvia não apenas questões religiosas, mas também fortes interesses políticos.
Alguns membros da aristocracia romana desejavam um Papa mais favorável às posições do imperador bizantino Anastácio I. Esse grupo apoiou Lourenço.
A maioria do clero romano, por outro lado, escolheu Símaco, que era visto como um defensor mais firme da independência da Igreja diante das pressões do poder imperial.
A tensão foi tão grande que os dois grupos recorreram ao rei ostrogodo Teodorico, que governava a Itália, pedindo que ele decidisse qual eleição deveria ser reconhecida.
Teodorico determinou que deveria ser considerado legítimo aquele que tivesse sido ordenado primeiro e que contasse com o apoio da maioria. Pelos critérios apresentados, reconheceu Símaco como o verdadeiro Papa.
Lourenço aceitou inicialmente a decisão e recebeu o governo de uma diocese. Contudo, a paz durou pouco.
As acusações contra São Símaco
Alguns anos depois, os adversários de Símaco voltaram a agir. O Papa foi acusado de graves irregularidades administrativas e morais.
Não existem provas históricas seguras de que essas acusações fossem verdadeiras. Muitos estudiosos consideram que elas faziam parte de uma tentativa política de afastá-lo do pontificado.
O rei Teodorico convocou Símaco para se apresentar diante de um tribunal. Durante a viagem, porém, o Papa percebeu que seus adversários haviam preparado uma situação hostil e retornou para Roma, refugiando-se nas proximidades da Basílica de São Pedro.
Diversos sínodos foram realizados em Roma para examinar a questão. Os bispos reunidos declararam que não possuíam autoridade para julgar definitivamente o Bispo de Roma, deixando a causa ao julgamento de Deus.
A crise se agravou. Os partidários de Lourenço tomaram várias igrejas de Roma, enquanto Símaco permaneceu por anos junto à Basílica de São Pedro, impedido de governar livremente grande parte da cidade.
Houve violência nas ruas, confrontos entre os grupos e ataques contra membros do clero. O cisma deixou profundas feridas na comunidade cristã romana.
Lourenço foi considerado um antipapa
Embora Lourenço tivesse recebido o apoio de parte do clero e da aristocracia, a Igreja reconheceu Símaco como o Papa legítimo.
Por esse motivo, Lourenço passou a ser incluído nas listas históricas como antipapa, isto é, alguém que reivindicou a autoridade pontifícia em oposição ao Papa canonicamente reconhecido.
O Cisma Laurenciano prolongou-se por vários anos. Lourenço chegou a controlar importantes igrejas de Roma e residiu no Palácio de Latrão, enquanto Símaco permaneceu próximo à Basílica de São Pedro.
Por volta do ano 506, Teodorico retirou seu apoio de Lourenço e ordenou que as igrejas fossem devolvidas a Símaco. Aos poucos, a divisão perdeu força.
Alguns seguidores de Lourenço ainda permaneceram separados por algum tempo, mas, após a morte de São Símaco, muitos deles foram reconciliados durante o pontificado de seu sucessor, o Papa São Hormisda.
O Cisma Laurenciano e o Cisma Acaciano são a mesma coisa?
Não. Embora tenham acontecido durante períodos próximos e estejam relacionados às tensões entre Roma e Constantinopla, foram conflitos diferentes.
O Cisma Laurenciano foi uma divisão interna em Roma provocada pela eleição simultânea de Símaco e Lourenço.
Já o Cisma Acaciano começou no ano 484 e envolveu a ruptura da comunhão entre Roma e Constantinopla. Sua origem estava nas controvérsias cristológicas e no chamado Henotikon, documento promovido pelo imperador Zenão na tentativa de conciliar grupos que divergiam sobre a natureza de Cristo.
São Símaco defendeu a fé católica durante o Cisma Acaciano e apoiou os bispos orientais que permaneciam fiéis à doutrina proclamada no Concílio de Calcedônia.
Ele também escreveu com firmeza ao imperador Anastácio I, defendendo a liberdade e os direitos da Igreja diante das interferências do poder político. O Cisma Acaciano somente terminaria em 519, durante o pontificado de São Hormisda, sucessor de Símaco.
A defesa da liberdade da Igreja
Uma das características mais marcantes do pontificado de São Símaco foi sua defesa da independência espiritual da Igreja.
Naquele período, reis, imperadores e famílias poderosas procuravam interferir diretamente nas decisões eclesiásticas. Símaco precisou resistir às tentativas de controlar a eleição papal e de submeter a autoridade da Igreja aos interesses políticos.
Sua firmeza não deve ser entendida como desejo de poder pessoal, mas como defesa da missão recebida por São Pedro e confiada aos seus sucessores.
Para São Símaco, a Igreja deveria cumprir livremente sua missão de anunciar o Evangelho, guardar a fé e conduzir os fiéis, sem se transformar em instrumento dos governantes.
Um Papa dedicado aos pobres
Apesar das perseguições e das dificuldades de seu pontificado, São Símaco não deixou de cuidar dos necessitados.
Ele mandou construir ou restaurar igrejas, ampliou estruturas próximas à antiga Basílica de São Pedro e criou lugares de acolhimento para os pobres junto às basílicas de São Pedro, São Paulo e São Lourenço.
Também enviou ajuda financeira e roupas para bispos e fiéis que sofriam perseguições no norte da África e em outras regiões.
Sua caridade demonstrava que a defesa da verdade e da unidade da Igreja precisava caminhar sempre ao lado do cuidado com os pobres e sofredores.
As obras de São Símaco em Roma
Durante seu pontificado, São Símaco promoveu diversas construções e reformas.
Ele realizou melhorias em igrejas e santuários, embelezou a Basílica de São Pedro e construiu residências episcopais próximas ao local. Essas construções foram importantes porque, durante o cisma, o Papa não podia permanecer com segurança no Palácio de Latrão.
Alguns registros históricos relacionam suas obras ao desenvolvimento inicial de estruturas que, muitos séculos depois, formariam o complexo do Vaticano.
São Símaco também cuidou das catacumbas e dos lugares ligados à memória dos mártires, preservando a herança espiritual dos primeiros cristãos.
O fim de seu pontificado
São Símaco governou a Igreja durante aproximadamente quinze anos e sete meses.
Faleceu em 19 de julho de 514 e foi sepultado na antiga Basílica de São Pedro.
No dia seguinte à sua morte, o diácono Hormisda foi eleito Papa. A eleição ocorreu de maneira pacífica, demonstrando que a grave divisão enfrentada durante o pontificado de Símaco estava finalmente chegando ao fim.
São Hormisda continuaria o trabalho de seu predecessor e conduziria a Igreja até a superação do Cisma Acaciano.
O que São Símaco nos ensina?
A vida de São Símaco mostra que a Igreja, embora seja santa por sua origem divina, é formada por seres humanos e pode atravessar períodos de conflitos, divisões e incompreensões.
Mesmo nesses momentos, Cristo não abandona sua Igreja.
São Símaco ensina que o cristão deve permanecer firme na verdade, sem permitir que as dificuldades apaguem a caridade. Ele também nos recorda que a unidade da Igreja é um dom precioso, que deve ser protegido pela oração, pela fidelidade e pela comunhão com o legítimo sucessor de São Pedro.
Seu pontificado revela ainda os perigos que surgem quando interesses políticos e ambições pessoais procuram dominar a vida religiosa.
Diante das acusações, perseguições e limitações que sofreu, São Símaco não abandonou sua missão. Permaneceu junto à Basílica de São Pedro, governando a Igreja nas condições que lhe eram possíveis e confiando a Deus o julgamento de sua causa.
São Símaco, exemplo de perseverança
A santidade de São Símaco não está no fato de ter vivido sem conflitos, mas em ter permanecido fiel no meio deles.
Ele conheceu a rejeição, a calúnia, a divisão e a violência. Viu parte do clero e do povo seguir um rival. Foi impedido de exercer livremente sua missão em várias regiões de Roma.
Ainda assim, continuou defendendo a fé, socorrendo os pobres, apoiando os perseguidos e trabalhando pela unidade da Igreja.
Sua história é especialmente atual em tempos nos quais divisões, acusações e disputas podem ferir a comunhão entre os cristãos.
São Símaco nos convida a não alimentar conflitos, a não espalhar acusações sem provas e a não colocar preferências políticas ou pessoais acima da unidade da Igreja.
Oração a São Símaco
Ó Deus, que concedestes a São Símaco
firmeza para defender a unidade da Igreja
em meio às divisões, perseguições e injustiças,
dai-nos um coração fiel à verdade
e profundamente unido à Igreja de Cristo.
Pela intercessão de São Símaco,
livrai-nos do orgulho, das rivalidades
e de tudo aquilo que provoca discórdia
entre os filhos de Deus.
Ensinai-nos a defender a fé com coragem,
mas também com humildade e caridade.
Fortalecei o Santo Padre,
os bispos, sacerdotes e todos os fiéis,
para que permaneçam unidos
na mesma fé, na mesma esperança
e no mesmo amor.
São Símaco,
pastor fiel e defensor da Igreja,
intercedei por nós.
Amém.
São Símaco, rogai por nós!
Que o testemunho de São Símaco nos ajude a compreender que, mesmo nos períodos mais difíceis, Cristo continua conduzindo sua Igreja.
Peçamos sua intercessão para permanecermos firmes na fé, unidos ao sucessor de São Pedro e comprometidos com a verdade, a paz e a caridade.
São Símaco, defensor da unidade e da liberdade da Igreja, rogai por nós!







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