Missa Tridentina em Santa Cruz da Venerada, no sertão do Araripe, em Pernambuco | Instagram/Missa Tridentina Petrolina
Por Monasa Narjara
8 de jul de 2026 às 13:49
As recentes excomunhões de bispos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), depois das sagrações episcopais realizadas sem autorização papal em 1º de julho, motivaram dioceses brasileiras a divulgar notas de esclarecimento sobre a situação canônica da fraternidade. As dioceses também destacaram a importância da comunhão com o papa e os bispos.
Depois das ordenações de 1ºde julho, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou decreto no dia 2 de julho dizendo que os seis bispos envolvidos, dois ordenantes e quatro ordenados, incorreram em excomunhão latae sententiae, ou seja, automática. Também disse que o grupo está em cisma.
Em notas publicadas ontem (7), as dioceses de Crato (CE) e Petrolina (PE) ressaltam que a causa da excomunhão não tem relação com a celebração da missa no rito romano antigo.
“A causa da excomunhão foi o ato de desobediência – a consagração de bispos à revelia da autoridade do santo padre – e não a celebração da santa missa na forma tradicional do rito romano, que permanece plenamente legítima da Igreja”, disse a diocese de Crato, em nota assinada pelo delegado episcopal para a atenção pastoral dos fiéis que celebram o tiro romano segundo o missal anterior à reforma de 1970.
A diocese de Petrolina ressaltou que a missa tradicional no rito romano antigo “continua na Igreja conforme normatizada pelo papa Francisco em 2021”, no motu próprio Traditionis custodes.
Na diocese de Crato, diz a nota, “os fiéis que celebram na forma segundo o missal romano de 1962 (popularmente conhecida como ‘missa tridentina’) são unicamente aqueles reunidos no conhecido apostolado Nossa Senhora do Rosário e que são acompanhados pastoralmente pelo padre Filipe Gonçalves Macêdo, nomeado pelo bispo diocesano como delegado episcopal para a atenção pastoral dos fiéis que celebram o rito romano segundo o missal anterior à reforma de 1970”.
“Este apostolado, bem como a diocese do Crato, permanece, como sempre esteve, em plena comunhão com a Igreja Católica, em unidade e obediência ao santo padre, o papa Leão XIV, e ao bispo diocesano”, completou.
A diocese de Petrolina ressaltou que “o apostolado do oratório de santo Antônio”, que está em seu território diocesano, “permanece na comunhão da Igreja em unidade e obediência ao santo padre, o papa Leão, e ao bispo diocesano, dom Antônio Carlos Cruz Santos, tendo o padre Francisco Ferreira Leite Filho como delegado diocesano para o único grupo de fiéis que segue a missa na forma tradicional do rito romano na diocese”.
Ao final de suas notas, as duas dioceses pediram aos fiéis que intensifiquem suas orações pela paz e pela unidade da Igreja.
O arcebispo de Campinas (SP), dom João Inácio Müller, também se manifestou depois das excomunhões, porque, disse em nota, “há fiéis” de sua arquidiocese “que manifestam dúvidas a respeito da situação canônica da Fraternidade Sacerdotal São Pio X”. Dom João Inácio considerou “oportuno oferecer este esclarecimento, reafirmando, com fidelidade ao Magistério vivo da Igreja, a centralidade da comunhão eclesial na vida católica”.
O arcebispo cita a nota explicativa publicado pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, que “esclarece que os ministros da referida Fraternidade se encontram fora da plena comunhão com a Igreja Católica”, diz que “aqueles que aderem formalmente à Fraternidade incorrem nas penas canônicas próprias do cisma” e “exorta vivamente todos os fiéis a permanecerem em plena comunhão com o santo padre, o papa Leão XIV, e com os bispos em comunhão com ele, abstendo-se de participar das celebrações e atividades promovidas pela Fraternidade”.
Dom João Inácio destacou que a nota do dicastério “declara que os ministros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X exercem o ministério de forma ilícita” e “esclarece ainda que o sacramento da penitência por eles administrado e os matrimônios por eles assistidos são inválidos”.
“Por isso, os fiéis que desejarem receber validamente esses sacramentos devem procurá-los nas paróquias e comunidades católicas em plena comunhão com a Igreja”, disse.
Ele ressaltou que “a participação plena na vida da Igreja exige comunhão visível e efetiva com o sucessor de Pedro e com os bispos unidos a ele”.
“Essa comunhão não é aspecto secundário da fé católica, mas pertence à própria natureza da Igreja fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo”, disse.
O bispo de Mogi das Cruzes (SP), dom Pedro Luiz Stringhini, disse em nota que há um grupo da Fraternidade Sacerdotal São Pio X presente em Arujá, um dos municípios de sua diocese, onde “alguns sacerdotes celebram os sacramentos com a assistência de fiéis”. Por isso, disse, “faz-se necessário” um esclarecimento a respeito da situação canônica do grupo.
Segundo o bispo, “a situação deste Núcleo já era irregular dado o fato que nenhum dirigente do mesmo” o “procurou” para “dar ciência e para dialogar sobre as atividades ali exercidas”.
O bispo ressaltou que “a situação canônica desta circunscrição tornou-se doravante complicada pois o ato cismático da FSSPX foi considerado e declarado efetivado pela Santa Sé Apostólica com o Decreto formal do Dicastério para a Doutrina da Fé, declarando a ocorrência da excomunhão latae sentenciae (automática)”.
Dom Pedro Luiz alertou que o Dicastério para a Doutrina da Fé “adverte aos fiéis leigos e clérigos que ao aderirem ao ato cismático incorrerão na mesma excomunhão, dado que, embora se declarem católicos e tenham prática católica, estes fiéis e clérigos podem-se colocar fora da comunhão hierárquica da Igreja”.
“Deste modo, faço minhas as palavras do próprio decreto de excomunhão emanado pela Santa Sé: ‘clérigos e fiéis leigos são advertidos a não aderirem ao cisma da Fraternidade Sacerdotal de São Pio X, pois incorreriam ipso facto na pena de excomunhão latae sententiae’”.
Ao final do comunicado, o bispo esclareceu “que se algum fiel católico, talvez inadvertidamente, frequentava o núcleo de Arujá para participar da missa tridentina, em latim, doravante poderá fazê-lo na paróquia Santa Cruz”, no bairro Ponte Grande, em Mogi das Cruzes, “onde tais missas são celebradas na fórmula extraordinária (tridentina em latim) em plena comunhão com a Santa Sé e com nossa aprovação enquanto ordinário local”.
O arcebispo de São Paulo (SP), cardeal Odilo Pedro Scherer, também refletiu sobre a “comunhão eclesial” no artigo ‘Em comunhão com a Igreja’, sobre a excomunhão e o cisma da FSSPX, publicado hoje (8) no site do jornal O São Paulo, da arquidiocese. Segundo ele, esse tema tem sido muito refletido na Igreja “nestes últimos anos”. O arcebispo lamentou que essa comunhão “é ferida e até rompida de diversas formas”.
Para dom Odilo, “é certo” que a ordenação dos bispos pela FSSPX sem a autorização papal “não se tratou apenas de desobediência ao papa e às normas da Igreja, mas foi ferida a própria fé na Igreja Católica e no Espírito Santo, que conduz a Igreja através dos seus legítimos pastores, sobretudo em referência ao papa, o que é, de forma prática, negado pela Fraternidade São Pio X”.
“A comunhão eclesial refere-se à aceitação da mesma fé, afirmada no ‘Creio em Deus Pai’ e explicada oficialmente pelo Magistério da Igreja, sobretudo no Catecismo da Igreja Católica, nos documentos conciliares, nos escritos e na voz do papa e dos bispos em comunhão com ele”, disse dom Odilo. Ele ressaltou, porém, que essa comunhão “refere-se também na comunhão litúrgica, ou seja, na forma de celebrar os mistérios da fé na forma aprovada pelo Magistério da Igreja”. “E a Igreja conclama a todos a viverem e testemunharem essa comunhão na caridade fraterna, no serviço evangélico ao reino de Deus no mundo e na esperança na salvação prometida”, enfatizou o cardeal.
O arcebispo também ressaltou que “a celebração da Eucaristia representa o momento visível mais forte dessa comunhão invisível da Igreja”. “Que nossas celebrações eucarísticas unam sempre mais a Igreja e que todos os que se reúnem em torno do altar (que representa Cristo), ouvem a Palavra de Deus e acolhem o Pão da Vida sejam sempre mais um só corpo, sem divisões”, concluiu.
Fonte: ACI digital
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