Misericórdia: uma condição para o apóstolo
10º Domingo do Tempo Comum - Ano A
Evangelho de Mateus 9,9-13
Naquele tempo: 9 Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: “Segue-me!” Ele se levantou e seguiu a Jesus. 10 Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: “Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?” 12 Jesus ouviu a pergunta e respondeu: “Aqueles que têm saúde não precisam de médico, mas sim os doentes. 13 Aprendei, pois, o que significa: ‘Quero misericórdia e não sacrifício’. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores”.
REFLEXÃO
O Evangelho deste domingo apresenta o chamado de Mateus, cobrador de impostos, pecador segundo a mentalidade dos líderes religiosos, por colaborar com o Império Romano. Após o convite, Mateus prontamente se coloca no caminho com Jesus. O chamado se dá num ambiente de trabalho, e não religioso. Mateus convida Jesus para uma refeição em sua casa. Nessa refeição, havia publicanos e pecadores. É uma festa entre Jesus e os convidados na casa de Mateus. Como sempre, os fariseus começam suas críticas pelo fato de Jesus fazer refeição com pobres e pecadores. Em resposta, Jesus diz que “os doentes são os que necessitam de médico”, não os que se dizem “pessoas de bem”. Jesus se mostra livre e não se deixa aprisionar pelos esquemas humanos, nem pelas teorias religiosas.
(Dia a Dia com o Evangelho 2026 - PAULUS)[1]
Coleta
Ó Deus, fonte de todo o bem, atendei ao nosso apelo e fazei-nos, por vossa inspiração, pensar o que é certo e realizá-lo com vossa ajuda. Por nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus, e convosco vive e reina, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos.
Misericórdia: uma condição para o apóstolo
Jesus não apenas se aproximou de Mateus. Não apenas mostrou tolerância. Jesus foi além e pede-nos para irmos além.
Sentou-se à mesa de Mateus e ceou com ele. Comer com alguém, na Sagrada Escritura e na cultura antiga do Oriente, significava ser amigo, ser íntimo, ser da família. Por isso Jesus comparou o Reino dos Céus a um banquete (Ap 19,9), em que todos formam uma ‘comunhão’ entre si e com Deus. Compreende-se o escândalo dos fariseus (v. 11). E Jesus apressou-se em dar a explicação. Comparou-se ao médico, cuja função é curar. Se, ao julgamento dos fariseus, os ‘publicanos e pecadores’ assentados à mesa com Jesus eram pessoas de religião impura, seria exatamente para eles que Jesus viera. E, como para os fariseus valia muito a autoridade dos profetas, Jesus citou Oseias, cujas profecias giravam em torno da justiça, da fidelidade e do amor: “Quero amor e não holocaustos” (Os 6,6).
A frase do profeta vem dentro de um contexto de conversão, de retorno do povo ao Senhor. Ora, a medicina trazida por Jesus é exatamente a conversão que, de forma nenhuma, se resume em atos rituais externos, mas em um reconhecimento interior do pecado que fizemos e da graça que nos é oferecida por Deus. É um ato do coração, isto é, de nossa pessoa inteira. Só depois desse reconhecimento, poderão vir um rito, um sinal externo e até público, que nos ajudem na fidelidade a Deus. O Senhor se aproxima de nós como Jesus de Mateus. Ceia conosco, abre seu coração.
Seja essa a segunda grande lição de hoje: Deus se aproxima de nós sem dedo acusador, ama-nos, abre-nos seu coração à espera de que nos voltemos para ele e nos lavemos na sua graça. Esse comportamento de Jesus se chama misericórdia. O mesmo comportamento devemos ter nós para com o próximo. Não segregar ninguém, não medir sua maldade com o metro da santidade que pensamos ter. Aproximar-se, acolher o outro. Essa atitude de ternura vale mais que holocaustos. A solidariedade, que o Evangelho chama ‘misericórdia’, é o mais eficiente remédio para a alma e para o corpo.
FREI CLARÊNCIO NEOTTI, OFM, entrou na Ordem Franciscana no dia 23 de dezembro de 1954. Escritor e jornalista, é autor de vários livros e este comentário é do livro “Ministério da Palavra – Comentários aos Evangelhos dominicais e Festivos”, da Editora Santuário.[2]
Fontes:
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