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Homilia do Papa Francisco na Missa da Solenidade da Epifania do Senhor (06/01/2020)

Papa Francisco na Missa da Epifania. Foto: Daniel Ibañez / ACI Prensa

Vaticano, 06 Jan. 20 / 08:42 am (ACI).- O Papa Francisco presidiu nesta segunda-feira, 6 de janeiro, na Basílica de São Pedro, a Missa pela Solenidade da Epifania do Senhor, na qual refletiu sobre o sentido da adoração que definiu como “um gesto de amor que muda a vida”.

“Na vida cristã, não basta saber. Sem sair de si mesmo, sem ir ao encontro de Deus, sem O adorar, não O conhecemos. De pouco ou nada servem a teologia e a ação pastoral, se não se dobram os joelhos; se não se faz como os Magos, que não se limitaram a ser sábios organizadores duma viagem, mas caminharam e adoraram. Quando se adora, apercebemo-nos de que a fé não se reduz a um belo conjunto de doutrinas, mas é a relação com uma Pessoa viva, que devemos amar”, destacou o Santo Padre.

A seguir, a homilia do Papa Francisco.

No Evangelho (Mt 2, 1-12), os Magos começam por manifestar a intenção que os move: ‘Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo’. Adorar é o objetivo do seu percurso, a meta do seu caminho. De fato, chegados a Belém, quando ‘viram o Menino com Maria, sua mãe, prostrando-se, adoraram-No’. Se perdermos o sentido da adoração, falta-nos o sentido de marcha da vida cristã, que é um caminho rumo ao Senhor, e não a nós. O risco existe, como nos adverte o Evangelho, quando, a par dos Magos, mostra personagens incapazes de adorar.

O primeiro deles é o rei Herodes, que usa o verbo ‘adorar’, mas de maneira falaciosa. Com efeito, pede aos Magos que o informem do local onde encontrarem o Menino, ‘para – diz ele – ir também eu adorá-Lo’. Na realidade, Herodes adorava apenas a si mesmo e por isso, com uma mentira, o que ele queria era livrar-se do Menino. Que nos ensina isto? Que o homem, quando não adora a Deus, é levado a adorar-se a si mesmo; e a própria vida cristã, sem adorar o Senhor, pode tornar-se uma forma educada de se louvar a si mesmo e a sua habilidade. Cristãos que não sabem adorar, que não sabe, rezar adorando.

É um risco sério: servir-se de Deus, em vez de servir a Deus. Quantas vezes trocamos os interesses do Evangelho pelos nossos; quantas vezes revestimos de religiosidade aquilo que a nós nos convém; quantas vezes confundimos o poder segundo Deus, que é servir os outros, com o poder segundo o mundo, que é servir-se a si mesmo!

Além de Herodes, há outras pessoas no Evangelho que não conseguem adorar: são os chefes dos sacerdotes e os escribas do povo. Com extrema precisão, indicam a Herodes o local onde havia de nascer o Messias: em Belém da Judeia. Conhecem as profecias e citam-nas de forma exata. Sabem aonde ir, mas não vão. Disto, também podemos tirar uma lição: na vida cristã, não basta saber. Sem sair de si mesmo, sem ir ao encontro de Deus, sem O adorar, não O conhecemos.

De pouco ou nada servem a teologia e a ação pastoral, se não se dobram os joelhos; se não se faz como os Magos, que não se limitaram a ser sábios organizadores duma viagem, mas caminharam e adoraram. Quando se adora, apercebemo-nos de que a fé não se reduz a um belo conjunto de doutrinas, mas é a relação com uma Pessoa viva, que devemos amar. É permanecendo face a face com Jesus que conhecemos o seu rosto. Quando O adoramos, descobrimos que a vida cristã é uma história de amor com Deus, onde não basta ter boas ideias sobre Ele, mas é preciso colocá-Lo em primeiro lugar, como faz um namorado com a pessoa amada. Assim deve ser a Igreja: uma adoradora enamorada de Jesus, seu esposo.

Ao principiar este ano, descubramos de novo a adoração como exigência da fé. Se soubermos ajoelhar diante de Jesus, venceremos a tentação de olhar apenas aos nossos interesses. De fato, adorar é fazer o êxodo da maior escravidão: a escravidão de si mesmo. Adorar é colocar o Senhor no centro, para deixarmos de estar centrados em nós mesmos. É predispor as coisas na sua justa ordem, reservando o primeiro lugar para Deus. Adorar é antepor os planos de Deus ao meu tempo, aos meus direitos, aos meus espaços. É aceitar o ensinamento da Escritura: ‘Ao Senhor, teu Deus, adorarás’ (Mt 4, 10). ‘Teu Deus’: adorar é sentir que nos pertencemos mutuamente, eu e Deus. É tratá-Lo por ‘Tu’ na intimidade, é depor a seus pés a nossa vida, permitindo-Lhe entrar nela. É fazer descer sobre o mundo a sua consolação. Adorar é descobrir que, para rezar, basta dizer ‘Meu Senhor e meu Deus!’ (Jo 20, 28) e deixar-me invadir pela sua ternura.

Adorar é ir ter com Jesus, não com uma lista de pedidos, mas com o único pedido de estar com Ele. É descobrir que a alegria e a paz crescem com o louvor e a ação de graças. Quando adoramos, permitimos a Jesus que nos cure e transforme; adorando, damos ao Senhor a possibilidade de nos transformar com o seu amor, iluminar as nossas trevas, dar-nos força na fraqueza e coragem nas provações. Adorar é ir ao essencial: é o caminho para se desintoxicar de tantas coisas inúteis, de dependências que anestesiam o coração e estonteiam a mente.

De fato, adorando, aprende-se a rejeitar o que não deve ser adorado: o deus dinheiro, o deus consumo, o deus prazer, o deus sucesso, o nosso eu arvorado em deus. Adorar é fazer-se pequenino na presença do Altíssimo, descobrir diante d’Ele que a grandeza da vida não consiste em ter, mas em amar. Adorar é descobrir-nos como irmãos e irmãs face ao mistério do amor que ultrapassa todas as distâncias: é beber o bem na fonte, é encontrar no Deus próximo a coragem de nos aproximarmos dos outros. Adorar é ficar calado diante do Verbo divino, para aprender a dizer palavras que não magoem, mas consolem.

Adorar é um gesto de amor que muda a vida. É fazer como os Magos: levar ao Senhor o ouro, para Lhe dizer que nada é mais precioso do que Ele; oferecer-Lhe o incenso, para Lhe dizer que só com Ele se eleva para o alto a nossa vida; apresentar-Lhe a mirra – com ela se ungiam os corpos feridos e dilacerados – como promessa a Jesus de que socorreremos o próximo marginalizado e sofredor, porque nele está o Senhor.

Amados irmãos e irmãs, hoje cada um de nós pode interrogar-se: ‘Sou um cristão adorador?’. Muitos cristãos que rezam, não sabem adorar. Façamo-nos esta pergunta. Encontramos momentos para a adoração ao longo do nosso dia e criamos espaço para a adoração nas nossas comunidades? Cabe a nós, como Igreja, colocar em prática as palavras que acabamos de rezar no Salmo: ‘Adorar-Vos-ão, Senhor, todos os povos da terra’. Adorando, descobriremos também nós, como os Magos, a direção certa do nosso caminho. E sentiremos, como os Magos, uma ‘imensa alegria’ (Mt 2, 10).

Fonte: ACI digital

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