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segunda-feira, 26 de agosto de 2019

REPAM traça caminho perigoso para a unidade, diz Dom Azcona. Hummes e Kräutler negam


Dom José Luis Azcona. Foto: Prelazia de Marajó/Divulgação.

REDAÇÃO CENTRAL, 26 Ago. 19 / 06:05 am (ACI).- Em um texto publicado, nesta terça-feira, 20, Dom José Luis Azcona, bispo emérito de Marajó, na Amazônia brasileira, dedicou uma parte inteira a analisar a atuação da Rede Eclesial Pan-amazônica, REPAM, a qual classifica como uma “instituição de pensamento único” o que seria, na opinião do bispo, algo “ameaçador” para o caminho da sinodalidade e um perigo para a unidade eclesial do Brasil, a presidência da entidade, representada pelo Cardeal Dom Claudio Hummes e Dom Erwin Kräutler, nega as críticas do bispo.

Vale recordar que o Presidente da REPAM é o Cardeal Cláudio Hummes, que atualmente tem 85 anos de idade e seu vice-presidente, o bispo prelado emérito do Xingú, o austríaco Dom Erwin Kräutler, há anos tem defendido a ordenação de homens casados e o sacerdócio feminino. Eles são os autores da resposta da REPAM às críticas do missionário agustino e bispo emérito de Marajó (PA), Dom José Luis Azcona, enviada a ACI Digital, na quinta-feira, 22.

Na parte de um recente artigo em que critica a atuação da REPAM, Dom Azcona afirma primeiramente que a entidade age no sentido contrário ao que foi pedido no documento de Aparecida, afirmando que atualmente “não existe” a pastoral de conjunto para a Amazônia que os bispos da América Latina reunidos na casa da Mãe Aparecida em 2007 recomendaram e lamenta que “causas históricas, geográficas, culturais” mas também “eclesiais”, levaram a uma compreensão teórica da Amazônia sem unidade nem conexões explícitas entre as Igrejas da mesma”.

“O primeiro apelo explícito a esta pastoral de conjunto o encontramos em Aparecida (2007) entre as propostas e orientações elencadas no número 474”. Em seguida, o emérito de Marajó, recorda outro numeral do Documento de Aparecida especificamente dirigido a uma pastoral de conjunto na região amazônica: “Estabelecer entre as Igrejas locais de diversos países sul-americanos, que estão na bacia amazônica, uma pastoral de conjunto com prioridades diferenciadas para criar um modelo de desenvolvimento que privilegia os pobres e sirva ao bem comum” (Documento de Aparecida 475).

“É digno de notar-se que na década dos anos 90, os Bispos da Amazônia elaboraram um Manifesto da Amazônia, entregue a diversos organismos internacionais, ao Vaticano e lançado em celebração memorável em Assis. Este fato indica a solicitude pastoral dos Bispos da nossa região diante da realidade, problemáticas e esperanças da ecologia integral”, prossegue o bispo.

Dom Azcona não nega que a REPAM possa ter tido um papel positivo. O próprio afirma que, a entidade, “neste fecundo processo de amadurecimento eclesial” colaborou “criando laços de cooperação, articulação etc. para dar forma ao sonho de uma Igreja em comunhão na Amazônia”.

“O que tem mudado com a criação da REPAM é valiosíssimo para o conhecimento, comunicação, interação, colaboração das Igrejas da Amazônia. É algo verdadeiramente providencial. Os resultados estão à vista: melhor conhecimento da realidade pan-amazônica, empatia iniciada entre as diversas Amazônias, consciência de unidade, articulação inicial para efetivar a unidade em ordem à missão na Amazônia e desde a Amazônia...”, destaca.

Entretanto, Dom Azcona explicita a discrepância da atuação da Rede Eclesial Pan-Amazônica com o pedido dos bispos latino-americanos em Aparecida: “Por outra parte a REPAM não representa a variedade de cosmovisões, identidades diversas, pensamento teológico e pastoral aberto. É uma instituição de pensamento único e isto é ameaçador até por ser um perigo para a liberdade de pensamento na Igreja da Amazônia. É uma Amazônia imposta”.

Por meio de sua presidência, a REPAM nega esta crítica de Dom Azcona asseverando que as mesmas: “são inaceitáveis pois não correspondem à verdade. Revelam desinformação a respeito da REPAM e o empenho dessa Rede nos países que compõem a Amazônia, incentivado continuamente por nosso Papa Francisco”.

Mais adiante, Dom Azcona, suscitou outro tema controverso, apontado em outra ocasião pelo Cardeal Ludwig Müller, Prefeito Emérito da Congregação para Doutrina da Fé, que foi a participação da REPAM no desenvolvimento do Instrumentum Laboris do Sínodo, apontando na linha da crítica do Cardeal alemão, ao concluir que o texto traz um “pensamento teológico e pastoral fraco”.

“Em função do Sínodo, para começar, o texto elaborado sob a responsabilidade da REPAM decepcionou, ao não apresentar com clareza uma reflexão ordenada. Por exemplo, com relação ao método "ver-julgar-agir", um instrumento metodológico e pastoral de tanta tradição latino-americana, foi apresentado confundindo os três passos ao incluir ideias e conceitos deslocados e sem e articulação entre as partes”, diz o prelado.

“Em alguns aspectos oferecendo propostas pastorais já faz anos superadas e não sólidas. Se se tratava de provocar “reação”, conseguiu desinteresse no estudo do mesmo.  O mesmo se diga de distribuição, em partes do IL. Tanto no Encontro dos Bispos da Amazônia Legal do ano passado em agosto, como na Assembleia geral da CNBB este ano em Aparecida, foram apresentados questionamentos nucleares sobre pontos neurálgicos do Sínodo a partir do Documento Preparatório como evidência de um patrulhamento do pensamento único da REPAM”, prossegue.

“A publicação do IL confirmou aquilo que foi anunciado como não consistente, alheio à verdade da Amazônia hoje e as linhas fundamentais de consenso amazônico sobre o qual possamos caminhar”, afirma Dom Azcona.

Respondendo a esta crítica , Dom Claudio Hummes e Dom Erwin Kräutler, por sua parte, dizem que “é absolutamente infundada essa afirmação (de que a REPAM seja a autora do Instrumentum Laboris) e acrescentam que “Dom Azcona não participou de nenhuma reunião em Roma, convocada pelo Papa Francisco”.

“A REPAM não é autora nem dos “Lineamenta” nem do “Instrumentum Laboris”, dizem o Cardeal Hummes e Dom Erwin Kräutler. Respondendo a ACI Digital, os bispos da presidência da REPAM explicitam que a entidade esteve encarregada “de ouvir as vozes da Amazônia, sistematizar o conteúdo e entregá-lo para a Secretaria Geral para o Sínodo, em Roma, que providenciou a presidiu em nome do Papa Francisco as reuniões do Conselho Pré-sinodal”.

“À REPAM foi solicitado formalmente o apoio à Secretaria Geral para o Sínodo e ao Conselho Pré-Sinodal presidido pelo Papa Francisco, no processo de escuta ativa e direta em toda a extensão do território Pan-Amazônico, no levantamento adequado das informações para ajudar na elaboração do Documento Preparatório (Lineamenta) e do Documento de Trabalho (Instrumentum Laboris). A confecção do Instrumentum Laboris seguiu os trâmites previstos pela Secretaria Geral para o Sínodo. Uma equipe de especialistas nomeada pelo Papa elaborou uma proposta levando em consideração as diversas contribuições recebidas durante o processo de escuta. Essa proposta foi minuciosamente analisada e trabalhada pelo Conselho Pré-Sinodal em maio deste ano e recebeu inúmeros acréscimos, precisões e aperfeiçoamentos e foi finalmente entregue à Secretaria Geral para o Sínodo para ser divulgado nos idiomas Espanhol e Português”, dizem o presidente e o vice da entidade.

O “Instrumentum Laboris” é um “instrumento” e nada mais que um instrumento e serve como subsídio para animar a maior participação possível dos diversos atores da Amazônia e depois como uma espécie de guia para o Sínodo propriamente dito em outubro. Não é um documento perfeito e pronto a ser votado mas um mero manual de trabalho”, diz a presidência da REPAM.

Ao finalizar seu texto, o prelado reitera sua crítica ao tema da atuação pastoral da REPAM, afirmando que o pensamento único e forma de atuar da entidade têm diminuído o interesse de parte do episcopado brasileiro no Sínodo.

 “Na atuação monocrática, sem ouvidos para o diálogo sereno e entre iguais, se encontra uma das raízes de certo desinteresse, evidente na Igreja do Brasil, pelo Sínodo da Amazônia. Junto a isto, aparece como motivo coadjuvante para esta falta de interesse “por este projeto messiânico” o fato de o IL partir dos indígenas na Amazônia, evangelizando assim a mesma e daí, o mundo inteiro. A ausência do realismo pastoral: pentecostais, cultura urbana, religiosidade popular, dimensão sóciotransformadora na direção da REPAM está produzindo áreas insensíveis ao Sínodo na consciência eclesial do Brasil e também da própria Amazônia; por exemplo, o desinteresse pela oração na preparação do Sínodo a partir da experiência do Espírito, para um novo Pentecostes que necessita de “calorosos momentos de oração comunitária para a grande missão” (Documento de Aparecida 362). Isto preocupa!”, escreve Dom José Luis.

Ante a crítica, o Cardeal Hummes e Dom Erwin responderam: “não é de nosso conhecimento tal reação ou postura de setores do episcopado. Pelo contrário, temos recebido muito apoio ao processo Sinodal, inclusive de dioceses e Igrejas particulares fora da Amazônia” e concluem dizendo que “cabe ao autor o ônus de identificar esses “determinados” grupos de bispos por nós desconhecidos como também explicitar a razão desta “certa reserva e apreensão”.

Dom José Luis Azcona conclui seu artigo asseverando que: “o pensamento um tanto estreito da REPAM está criando a sensação de que, em vez de ser um “caminho sinodal”, de fato é um "caminho monodal”, monocorde, monocromático, perigoso, portanto, para a unidade eclesial”.

Fonte: ACI digital



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