No dia 15 de setembro, a Igreja celebra a memória de Nossa Senhora das Dores, contemplando a Virgem Maria unida ao sofrimento de Jesus, especialmente durante sua Paixão e morte na Cruz.
Entre as mais belas expressões dessa devoção encontra-se o Stabat Mater, antigo poema cristão que atravessou os séculos como oração, hino litúrgico e fonte de inspiração para grandes compositores da música sacra.
Suas primeiras palavras conduzem imediatamente o cristão ao Calvário:
“Stabat Mater dolorosa, iuxta crucem lacrimosa...”
Em português:
“Estava a Mãe dolorosa, em lágrimas junto à Cruz...”
Mais do que descrever a tristeza de Nossa Senhora, o poema convida cada pessoa a permanecer espiritualmente ao lado de Maria, contemplando o sacrifício de Cristo e permitindo que esse mistério transforme seu coração.
O que significa Stabat Mater?
A expressão latina Stabat Mater significa “Estava a Mãe” ou “A Mãe permanecia de pé”.
Essas palavras foram inspiradas diretamente no Evangelho de São João:
“Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria de Cléofas, e Maria Madalena.”
(João 19,25)
O verbo latino stabat indica que Maria estava de pé junto à Cruz. Embora profundamente ferida pela dor, ela não abandonou o Filho e não fugiu daquele momento de sofrimento.
A presença silenciosa de Nossa Senhora no Calvário manifesta sua força, sua fidelidade e sua união com a missão redentora de Jesus.
Maria não sofre no lugar de Cristo, pois somente Ele realiza a obra da Redenção. Ela sofre com o Filho e permanece ao seu lado com o coração de mãe e discípula.
Qual é a origem do Stabat Mater?
O Stabat Mater surgiu na Idade Média, provavelmente no século XIII.
Sua autoria é tradicionalmente atribuída ao frade franciscano Jacopone da Todi, poeta religioso italiano que faleceu em 1306. Entretanto, os estudiosos observam que não há certeza absoluta sobre quem escreveu o poema.
A tradição cristã, porém, preservou essa composição pela profundidade com que ela contempla o sofrimento de Nossa Senhora e a Paixão de Jesus.
O texto possui vinte estrofes de três versos. Na primeira parte, descreve Maria junto à Cruz, com a alma atravessada pela dor. Depois, transforma-se em uma súplica pessoal: quem reza pede a graça de participar espiritualmente daquela contemplação, amar mais profundamente a Cristo e guardar em seu coração a memória de sua Paixão.
Maria permanecia de pé junto à Cruz
O Stabat Mater não apresenta Nossa Senhora vencida pelo desespero. Ele nos mostra uma mãe que chora, mas permanece de pé.
Maria contempla os sofrimentos daquele que carregou em seu ventre, embalou nos braços e acompanhou desde Belém. A profecia feita por Simeão muitos anos antes parecia cumprir-se diante dela:
“E uma espada traspassará a tua alma.”
(Lucas 2,35)
No Calvário, Maria acompanha a entrega de Jesus e recebe uma nova missão materna:
“Mulher, eis aí o teu filho.” Depois disse ao discípulo: “Eis aí tua mãe.”
(João 19,26-27)
A dor de Nossa Senhora não termina em si mesma. Junto à Cruz, sua maternidade abre-se para acolher os discípulos de Cristo.
Uma oração de contemplação e conversão
O poema começa convidando-nos a olhar para Maria. Pouco depois, faz uma pergunta que atravessa os séculos:
Quem poderia contemplar a Mãe de Cristo sofrendo com seu Filho e não se entristecer?
Em seguida, a oração deixa de ser apenas uma narrativa. A pessoa que reza pede para participar daquela dor, não por uma busca do sofrimento em si mesmo, mas para compreender melhor o amor de Cristo.
O fiel suplica para que seu coração seja inflamado de amor por Deus e marcado pela memória da Cruz. Assim, o Stabat Mater torna-se uma oração de conversão.
Contemplar Maria no Calvário é aprender com ela a:
- permanecer perto de Jesus nos momentos difíceis;
- não perder a fé diante do sofrimento;
- reconhecer o amor manifestado na Cruz;
- consolar aqueles que vivem suas próprias dores;
- confiar na esperança da Ressurreição.
O Stabat Mater na liturgia da Igreja
O Stabat Mater foi acolhido pela tradição litúrgica e devocional católica. Atualmente, pode ser rezado ou cantado como sequência facultativa na memória de Nossa Senhora das Dores, celebrada em 15 de setembro.
A sequência é um canto que, em determinadas celebrações, aparece antes da aclamação ao Evangelho.
O poema também está profundamente ligado à oração da Via-Sacra, às meditações da Paixão de Cristo e à devoção das Sete Dores de Nossa Senhora.
A liturgia não nos apresenta Maria como uma figura isolada. Nossa Senhora é contemplada sempre em relação com Jesus, participando com fé dos mistérios da vida de seu Filho.
Um poema que se tornou música
Ao longo dos séculos, o Stabat Mater inspirou alguns dos maiores compositores da música ocidental.
Entre as numerosas versões encontram-se obras compostas por:
- Giovanni Pierluigi da Palestrina;
- Antonio Vivaldi;
- Giovanni Battista Pergolesi;
- Joseph Haydn;
- Gioachino Rossini;
- Antonín Dvořák;
- Francis Poulenc.
Cada composição expressa de maneira própria a tristeza, a ternura, a súplica e a esperança presentes no poema.
Algumas versões são profundamente contemplativas e delicadas; outras possuem grande intensidade dramática. Todas testemunham como a cena de Maria junto à Cruz continuou inspirando a fé e a arte cristã através das gerações.
Stabat Mater — tradução livre e devocional
A seguir, apresentamos uma tradução livre do antigo poema latino, preparada especialmente para o Devoção e Fé Blog Católico.
Estava a Mãe dolorosa
Estava a Mãe dolorosa,
em lágrimas junto à Cruz,
enquanto pendia seu Filho.
Sua alma, cheia de gemidos,
entristecida e dolorida,
uma espada atravessava.
Oh, como estava triste e aflita
aquela Mãe bendita,
Mãe do Filho Unigênito!
Ela chorava e sofria,
Mãe piedosa, enquanto via
as dores de seu Filho glorioso.
Quem não haveria de chorar
ao contemplar a Mãe de Cristo
em tamanho sofrimento?
Quem não se entristeceria
ao contemplar a Mãe de Cristo
sofrendo com seu Filho?
Pelos pecados de seu povo,
ela viu Jesus nos tormentos
e submetido aos açoites.
Viu seu doce Filho
morrer abandonado,
quando entregou o espírito.
Ó Mãe, fonte de amor,
fazei-me sentir a força de vossa dor,
para que eu chore convosco.
Fazei arder meu coração
no amor a Cristo, meu Deus,
para que eu seja agradável a Ele.
Santa Mãe, concedei-me isto:
gravai profundamente em meu coração
as chagas do Crucificado.
De vosso Filho ferido,
que por mim quis tanto sofrer,
permiti-me compartilhar as dores.
Fazei-me verdadeiramente chorar convosco
e compadecer-me de Cristo crucificado
enquanto eu viver.
Desejo permanecer convosco junto à Cruz
e unir-me a vós
em vosso pranto.
Virgem das virgens, gloriosa,
não rejeiteis minha súplica:
fazei-me chorar convosco.
Fazei que eu traga em mim a morte de Cristo,
participe de sua Paixão
e recorde suas santas chagas.
Fazei-me ferido por suas feridas,
inebriado pela Cruz
e pelo amor de vosso Filho.
Para que eu não seja consumido pelas chamas,
seja por vós, ó Virgem, defendido
no dia do julgamento.
Ó Cristo, quando eu partir desta vida,
concedei-me, por meio de vossa Mãe,
alcançar a palma da vitória.
Quando meu corpo morrer,
concedei que minha alma receba
a glória do Paraíso.
Amém.
Tradução livre e devocional do poema latino medieval Stabat Mater, preparada para o Devoção e Fé Blog Católico.
Assista ao vídeo do Stabat Mater
Ao ouvir o Stabat Mater, procure contemplar em silêncio a presença de Maria aos pés da Cruz. Deixe que a música conduza sua oração e apresente a Jesus as dores que você carrega no coração.
Permanecer com Maria junto de Jesus
O Stabat Mater continua atual porque todas as pessoas experimentam, em algum momento, a dor, a perda e a impotência diante do sofrimento de quem amam.
Maria ensina que permanecer junto de alguém também é uma forma de amar. Nem sempre podemos retirar a dor do outro, mas podemos estar presentes, rezar, consolar e não abandonar.
Contemplar Nossa Senhora das Dores é aprender a permanecer junto de Jesus também quando não compreendemos os caminhos de Deus.
A Cruz, porém, não é a última palavra. A Mãe que permaneceu no Calvário também participou da alegria da comunidade que anunciou a Ressurreição.
Por isso, o Stabat Mater é um canto de dor iluminado pela esperança. Com Maria, aprendemos a atravessar o sofrimento sem perder a fé e a esperar, mesmo entre lágrimas, a vitória de Cristo.
Nossa Senhora das Dores, rogai por nós!
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