O bispo de Itapetininga (SP), dom Luiz Antonio Lopes Ricci / Crédito: Facebook Diocese de Itapetininga
Por Natalia Zimbrão
23 de out de 2026 às 09:17
Ao menos dois dos cerca de 60 bispos que assinaram a carta publicada ontem (22) em apoio à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e rejeição à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) disseram que o documento não é um pedido de voto em um candidato.
“O documento oferece tão somente orientações de conscientização e discernimento cristão aos fiéis para o exercício do voto, não contendo qualquer pedido explícito de apoio nem declaração de voto a candidatos ou partidos políticos”, disse em nota a diocese de Campos (RJ), cujo bispo Roberto Francisco Ferrería Paz, assinou a “Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026”. A diocese diz ainda que a carta “tem caráter exclusivamente pastoral”.
A diocese de Itapetininga (SP) disse em uma nota de esclarecimento que seu bispo, dom Luiz Antonio Lopes Ricci, também signatário da carta, “não deseja que sua manifestação seja interpretada como um pedido de voto para determinado candidato”. “O bispo reafirma que o voto é livro e consciente, cabendo a cada cidadão exercer sua responsabilidade cívica de acordo com sua consciência, seus valores e suas convicções”, diz a nota.
O bispo também pediu que “as tensões inerentes ao processo eleitoral não sejam causa de divisão, conflitos ou manipulações” e que se mantenha “a serenidade, o espírito orante e o discernimento, para que estes dias transcorram na paz e no respeito”.
A nota reforça que “a manifestação do bispo não deve ser interpretada como orientação ou indicação de voto em favor de qualquer candidato ou partido”.
A carta dos bispos não cita nomes, mas diz que uma das candidaturas “ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI [Doutrina Social da Igreja], a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”. O documento critica a candidatura que “sempre foi contra o fim da escala 6x1” e diz que um dos candidatos “promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA)”, “promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo” e “não reconhece a crise climática, nega os problemas ecológicos”.
“Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças”, diz a carta.
Sem citar Lula, a carta diz que a outra candidatura, “embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição”.
“Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, dizem os bispos.
A carta é apresentada por alguns bispos em um vídeo publicado nas redes sociais da diocese de Cachoeiro do Itapemirim (ES). Segundo a publicação, o bispo de Cachoeiro, dom Luiz Fernando Lisboa, “está entre os responsáveis pela elaboração do documento”. Além dele, aparecem no vídeo o bispo emérito de Cornélio Procópio (PR), dom Manoel João Francisco, o bispo de Livramento de Nossa Senhora (BA), dom Vicente de Paula Ferreira, o bispo de Santa Cruz do Sul (RS), dom Itacir Brassiani, o bispo de Roraima (RR), dom Evaristo Spengler, o bispo de Sete Lagoas (MG), dom Francisco Cota de Oliveira, o bispo emérito de São Félix do Araguaia (MT), dom Adriano Ciocca, e o bispo de Araçuaí (MG), dom Geraldo Maia.
Incentivo à votação
Alguns bispos que assinaram a carta também publicaram vídeos em redes sociais incentivando os eleitores a participarem da votação e não se omitirem.
“Às vésperas do segundo turno das eleições, somos chamados a assumir a nossa responsabilidade pelo futuro do Brasil”, disse o arcebispo de Feira de Santana (BA), dom Zanoni Demettino Castro. Para ele, “estão em jogo a democracia, a soberania nacional, a Constituição e os direitos sociais conquistados a longo de décadas”. “A fé cristã não nos permite cruzar os braços diante da realidade”, acrescentou.
O arcebispo pediu aos eleitores que não deixem “que a decepção com a política se transforme em omissão”. “Não votar, votar em branco ou anular o voto também tem consequências”, disse.
Ele cita como critérios a serem avaliados a educação, a saúde, as “famílias pobres”, as “comunidades quilombolas”, os “povos indígenas” e a “preservação de nossa casa comum”.
O bispo de Viana (MA), dom Evaldo Carvalho dos Santos, também estimulou o eleitor “a não se omitir” e “participar do pleito eleitoral”. Ele incentivou a votar “não apenas pensando em benefícios próprios ou familiares”. “Vote pensando na nossa gente aqui do Nordeste, nas pessoas mais necessitadas do nosso país. Vote pelo SUS. Vote pela escola pública. Vote pela Constituição. Vote pela democracia”, disse.
Dom Evaldo pediu ainda que o eleitor “vote também pela tua comunidade eclesial, pela tua Igreja”. “Vote pelos bispos do Brasil, também por mim”, disse.
Fonte: ACI digital
---

Comentários
Postar um comentário