Bispos assinam carta de apoio a Lula e dizem que Flávio Bolsonaro é contra Doutrina Social da Igreja
Imagem ilustrativa dos bispos signatários da carta. Crédito: ACI Digital.
Por Nathália Queiroz
23 de out de 2026 às 05:15
Uma carta publicada ontem (22), que reúne até agora 59 assinaturas de bispos, apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e rejeita a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). Segundo os signatários, uma das candidaturas “ameaça frontalmente diversos pontos centrais da DSI [Doutrina Social da Igreja], a existência da democracia, a soberania nacional e a prática do bem comum”. A carta foi publicada no dia seguinte à mensagem ao povo brasileiro do Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sobre o segundo das eleições presidenciais.
Em documento sobre as eleições divulgado em 17 de junho, a CNBB afirmou que Igreja no Brasil não apoiava nenhum partido nem candidato.
Sem citar Flávio Bolsonaro pelo nome, a nova carta dos bispos critica a candidatura que “sempre foi contra o fim da escala 6x1” e afirmam que um dos candidatos “promete submissão do Brasil aos Estados Unidos (EUA)”, “promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo” e “não reconhece a crise climática, nega os problemas ecológicos”.
“Não se trata apenas de uma escolha eleitoral, tantas vezes já praticada no Brasil, mas da possibilidade de uma mudança profunda nos rumos da nação, cujos exemplos na história do século XX deixaram cruéis e amargas lembranças”, diz a carta.
O documento também não menciona Lula pelo nome, mas afirma que a outra candidatura, “embora também esteja sujeita a críticas, sempre manifestou responsabilidade com os pobres e com a Casa Comum e atuou dentro dos limites da ordem democrática, respeitando a Constituição”.
“Gostar ou não do atual Governo não pode ser razão para entregar o país nas mãos de quem manifesta tamanha contradição com os ensinamentos de nossa Igreja”, dizem os bispos.
Intitulado “Carta de bispos católicos ao povo de Deus diante do segundo turno das eleições presidenciais de 2026”, o texto foi divulgado pela coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo, e está aberto a adesões até amanhã (24), véspera do segundo turno das Eleições que além de escolher o próximo presidente da República, os eleitores de alguns estados também votarão para governador. Segundo a coluna, o movimento Bispos do Diálogo pelo Reino, que até agora manifestava-se publicamente sobre temas políticas anonimamente, participou da articulação para elaborar e divulgar a carta.
Entre os signatários estão os arcebispos de Uberaba (MG), dom Paulo Mendes Peixoto, de Porto Velho (RO), dom Roque Paloschi, e de Feira de Santana (BA), dom Zanoni Demettino Castro, além de dom Luiz Fernando Lisboa, bispo de Cachoeiro de Itapemirim (ES), que tem o título pessoal de arcebispo.
O bispo da prelazia do Marajó (PA), dom José Ionilton Lisboa de Oliveira, assina o documento como presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), e não com a identificação de sua prelazia. Também assinam o bispo de Santos (SP), dom Joaquim Giovani Mol Guimarães, e o bispo de Jales (SP), dom José Reginaldo Andrietta.
O bispo de Campos (RJ), dom Roberto Francisco Ferrería Paz, é um dos signatários e disse à ACI Digital, por meio de nota de sua diocese, que a carta tem “caráter exclusivamente pastoral”, “não contendo qualquer pedido explícito de apoio nem declaração de voto a candidatos ou partidos políticos”.
A assessoria informou que o bispo não concederá novas declarações, “visto que todos os posicionamentos e reflexões da Igreja encontram-se devidamente expressos no texto da referida carta”.
Em abril deste ano, a CNBB informava que o Brasil tinha 497 bispos, dos quais 324 em atividade e 173 eméritos. Os 59 signatários correspondem a cerca de 11% desse total.
Os autores se apresentam como bispos de diversas dioceses do Brasil “em comunhão” com a CNBB e “alinhados com a Mensagem do Conselho Permanente ao Povo Brasileiro” divulgada na quarta-feira (21).
Trabalho, pobreza e soberania nacional
Os bispos dizem que pretendem ajudar os católicos em sua decisão, “apontando alguns pontos de antagonismo entre o ensinamento social da Igreja e uma das candidaturas em disputa”. Eles citam documentos da Igreja e em seguida alegam o que acham contrário a esses ensinamentos na candidatura de Bolsonaro.
“A candidatura que sempre foi contra o fim da escala 6x1 e propunha pagar o salário por hora trabalhada, não reconhece a dignidade do trabalhador e poderá voltar a este tema”, dizem em referência a Flávio Bolsonaro.
Os signatários citam a exortação apostólica Dilexi te, do papa Leão XIV, que critica os que pensam que “seria melhor deixar [os pobres] na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar” e que “a liberdade do mercado levará naturalmente à solução do problema da pobreza”.
Segundo os bispos, “o partido de um dos candidatos sempre foi publicamente contrário aos programas sociais e de combate à pobreza, por desconhecerem as causas da miséria no Brasil, mesmo que agora o seu candidato diga que vai continuar alguns programas sociais”.
“Estão, portanto, em contradição com a evangélica opção preferencial pelos pobres, reafirmada nos principais documentos de nossa Igreja”, continuam.
A carta acusa Flávio Bolsonaro de prometer “submissão do Brasil aos Estados Unidos”, ter participado “de uma conspiração para taxar produtos brasileiros”, defender “a intervenção estrangeira em nossas eleições” e prometer “entregar nossas terras raras à exploração dos EUA”.
Armas, meio ambiente e tortura
“A DSI propõe o desarmamento”, dizem os bispos, citando a passagem do Compêndio da Doutrina Social da Igreja segundo a qual “o enorme aumento das armas representa uma ameaça grave para a estabilidade e a paz”.
“Um dos candidatos promete liberar o acesso amplo às armas, como fez o seu pai em seu Governo”, acrescentam.
Sobre o meio ambiente, os signatários afirmam que o candidato do PL pretende “dar continuidade às políticas de devastação que caracterizaram o Governo de seu pai e a atuação de seu partido no Congresso”.
O documento menciona a Lei Geral do Licenciamento Ambiental (Lei nº 15.190/2025), que estabelece normas para o licenciamento de atividades potencialmente poluidoras e é chamada pelos autores de “Lei da Devastação”.
A carta também acusa Flávio Bolsonaro de ser “publicamente favorável à tortura” e cita homenagens de sua família ao coronel do Exército Carlos Brilhante Ustra (1932-2015), agente da repressão durante a ditadura militar.
“O discípulo de Cristo rejeita todo recurso [à tortura], de modo algum justificável”, diz a passagem do Compêndio reproduzida no documento.
“Não podemos nos manter neutros”
Os bispos se referem a Flávio Bolsonaro como “filho do presidente que foi condenado e preso por atentar contra a democracia e segue suas ideias”.
“Fez várias declarações de ameaça à ordem constitucional e, se eleito, governará com maioria absoluta no Congresso Nacional e no STF, criando as condições para uma usurpação do poder e submissão do país à sua ideologia”, alegam.
Para justificar seu posicionamento, os signatários citam a encíclica Magnifica humanitas, de Leão XIV: “Há situações em que, para permanecermos humanos, temos de abandonar as hesitações e tomar posição. Há conflitos nos quais não é justo permanecer neutros nem é suficiente pensar ‘não ser cúmplice’”.
“Diante desses e inúmeros outros elementos, não podemos nos manter neutros, a fim de que nossa consciência ou a história não nos condenem no futuro”, dizem.
“Conclamamos a todos os católicos para que não deixem de exercer seu direito e votem no dia 25 de outubro, em defesa da democracia, dos valores humanitários, dos pobres e dos ensinamentos de nossa Igreja.”
Nenhum dos oito cardeais do Brasil assinou, inclusive o arcebispo de Manaus, cardeal Leonardo Steiner, cujos bispos auxiliares assinam a carta.
Assinam a carta os seguintes 59 bispos, por estado:
Acre — 1
Dom Flávio Giovenale — bispo de Cruzeiro do Sul.
Amapá — 1
Dom Pedro José Conti — bispo emérito de Macapá.
Dom Adolfo Zon Pereira — bispo do Alto Solimões;
Dom Edmilson Tadeu Canavarros dos Santos — bispo de Itacoatiara;
Dom Edson Damian — bispo emérito de São Gabriel da Cachoeira;
Dom Frei Samuel Ferreira de Lima — bispo auxiliar de Manaus;
Dom Joaquim Hudson de Souza Ribeiro — bispo auxiliar de Manaus;
Dom José Albuquerque de Araújo — bispo de Parintins;
Dom José Altevir da Silva — bispo da Prelazia de Tefé e presidente nacional do Conselho Pastoral dos Pescadores e Pescadoras;
Dom Vanthuy Neto — bispo de São Gabriel da Cachoeira;
Dom Zenildo Lima da Silva — bispo auxiliar de Manaus;
Dom Zenildo Luiz Pereira da Silva — bispo de Borba.
Pará — 5
Dom Erwin Kräutler — bispo emérito da Prelazia do Xingu;
Dom João Muniz Alves — bispo de Xingu-Altamira;
Dom José Ionilton Lisboa de Oliveira — bispo da Prelazia do Marajó, que assina como presidente da Comissão Pastoral da Terra (CPT);
Dom Paolo Andreolli — bispo de Ponta de Pedras;
Dom Raimundo Possidonio Carrera da Mata — bispo de Bragança do Pará.
Rondônia — 2
Dom Norberto Foerster — bispo de Ji-Paraná;
Dom Roque Paloschi — arcebispo de Porto Velho.
Roraima — 1
Dom Evaristo Pascoal Spengler — bispo de Roraima.
Tocantins — 1
Dom Giovane Pereira de Melo — bispo de Araguaína.
Bahia — 3
Dom Mauro Montagnoli — bispo emérito de Ilhéus;
Dom Vicente de Paula Ferreira — bispo de Livramento de Nossa Senhora;
Dom Zanoni Demettino Castro — arcebispo de Feira de Santana.
Maranhão — 3
Dom Evaldo Carvalho dos Santos — bispo de Viana;
Dom Giuseppe Luigi Spiga — bispo de Grajaú;
Dom Sebastião Lima Duarte — bispo de Caxias do Maranhão.
Pernambuco — 3
Dom Egídio Bisol — bispo emérito de Afogados da Ingazeira;
Dom José Luiz Ferreira Salles — bispo de Pesqueira;
Dom Nereudo Freire Henrique — bispo auxiliar de Olinda e Recife.
Piauí — 1
Dom Benedito Araújo — bispo de Campo Maior.
Goiás — 1
Dom Eugênio Rixen — bispo emérito de Goiás.
Mato Grosso — 2
Dom Adriano Ciocca Vasino — bispo emérito de São Félix do Araguaia;
Dom Lucio Nicoletto — bispo de São Félix do Araguaia.
Mato Grosso do Sul — 3
Dom Frei Pedro Cesário Palma — bispo de Jardim;
Dom João Batista de Oliveira — bispo de Corumbá;
Dom Otair Nicoletti — bispo de Coxim.
Espírito Santo — 2
Dom Lauro Sérgio Versiani Barbosa — bispo de Colatina;
Dom Luiz Fernando Lisboa — bispo de Cachoeiro de Itapemirim, com título pessoal de arcebispo.
Minas Gerais — 5
Dom Francisco Cota de Oliveira — bispo de Sete Lagoas;
Dom Geraldo dos Reis Maia — bispo de Araçuaí;
Dom Joel Maria dos Santos — bispo auxiliar de Belo Horizonte;
Dom José Aristeu Vieira — bispo de Luz;
Dom Paulo Mendes Peixoto — arcebispo de Uberaba.
Rio de Janeiro — 1
Dom Roberto Francisco Ferrería Paz — bispo de Campos.
São Paulo — 7
Dom Joaquim Giovani Mol Guimarães — bispo de Santos;
Dom José Luiz Bertanha — bispo emérito de Registro;
Dom José Reginaldo Andrietta — bispo de Jales;
Dom Luiz Antonio Lopes Ricci — bispo de Itapetininga;
Dom Luiz Gonzaga Fechio — bispo de Amparo;
Dom Moacir Aparecido de Freitas — bispo de Votuporanga;
Dom Pedro Luiz Stringhini — bispo de Mogi das Cruzes.
Paraná — 1
Dom Manoel João Francisco — bispo emérito de Cornélio Procópio.
Rio Grande do Sul — 5
Dom Frei Aloísio Alberto Dilli — bispo emérito de Santa Cruz do Sul;
Dom Itacir Brassiani — bispo de Santa Cruz do Sul;
Dom Jorge Pierozan — bispo de Rio Grande;
Dom José Mario Stroeher — bispo emérito de Rio Grande;
Dom Silvio Guterres Dutra — bispo de Vacaria.
Santa Catarina — 1
Dom Guilherme Werlang — bispo emérito de Lages.
Fonte: ACI digital
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