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| Foto original: Daniel Culsan/Wikimedia Commons — CC BY-SA 4.0. Imagem adaptada com texto e elementos gráficos. |
Celebrada pelos devotos em 19 de setembro, Nossa Senhora da Salette — também chamada Nossa Senhora de La Salette — recorda uma aparição mariana ocorrida nos Alpes franceses em 1846. Sua mensagem atravessou os séculos como um apelo à conversão, à oração e à reconciliação com Deus.
Em 2026, a aparição de Nossa Senhora da Salette completou 180 anos, renovando um chamado que continua atual: voltar o coração para Jesus Cristo e viver com fidelidade o Evangelho.
A aparição de Nossa Senhora da Salette
No sábado, 19 de setembro de 1846, dois jovens pastores cuidavam de seus animais nas montanhas próximas ao povoado de La Salette-Fallavaux, na França.
Eles eram Mélanie Calvat, de 14 anos, e Maximin Giraud, de 11 anos.
Em determinado momento, os dois perceberam uma luz intensa. Dentro daquela luminosidade, viram uma mulher sentada sobre uma pedra, com o rosto entre as mãos e chorando. Depois, ela se levantou e os tranquilizou, convidando-os a se aproximar.
Os jovens a chamaram de “Bela Senhora”. Segundo seus relatos, ela estava inteiramente envolvida por uma grande luz e trazia sobre o peito um crucifixo, acompanhado de um martelo e uma tenaz. Havia também correntes e rosas em suas vestes.
A luz que envolvia toda a aparição parecia partir do crucifixo.
A Senhora falou inicialmente em francês. Percebendo que as crianças não compreendiam tudo, passou a falar no dialeto local, usando uma linguagem próxima da realidade simples em que elas viviam. Antes de desaparecer na luz, confiou-lhes a missão de transmitir sua mensagem a todo o povo. O relato completo está preservado pelos Missionários de Nossa Senhora da Salette.
Por que Nossa Senhora apareceu chorando?
As lágrimas são uma das características mais marcantes da aparição de La Salette.
Elas expressam a dor materna de Maria diante do afastamento de seus filhos de Deus, da indiferença religiosa, do desrespeito ao nome de Jesus e do abandono da oração e da santificação do domingo.
Não são lágrimas de desespero, mas de uma Mãe que ama, adverte e deseja conduzir seus filhos de volta ao caminho da graça.
Maria não chama a atenção para si mesma. O crucifixo luminoso que traz sobre o peito mostra que Jesus Cristo está no centro da mensagem de La Salette. É para Ele que Nossa Senhora deseja conduzir cada coração.
A mensagem de Nossa Senhora da Salette
A mensagem confiada a Mélanie e Maximin contém alguns ensinamentos essenciais para a vida cristã.
Conversão do coração
Nossa Senhora convida o povo a abandonar o pecado e retornar sinceramente a Deus. Não se trata apenas de uma mudança exterior, mas de permitir que o Evangelho transforme pensamentos, palavras e atitudes.
Fidelidade à oração
Maria perguntou às crianças se elas rezavam corretamente. Diante da resposta sincera de que quase não rezavam, ensinou-lhes a importância da oração pela manhã e à noite, ainda que, nos dias mais difíceis, pudessem rezar ao menos um Pai-Nosso e uma Ave-Maria.
A mensagem recorda que uma vida sem oração corre o risco de se afastar lentamente de Deus.
Santificação do domingo
Nossa Senhora lamentou que muitas pessoas trabalhassem aos domingos sem necessidade e se afastassem da Santa Missa. Seu apelo recorda o valor do Dia do Senhor, dedicado à Eucaristia, à oração, à família, ao repouso e às obras de caridade.
Respeito ao nome de Jesus
Outro ponto da mensagem foi a profanação do nome de seu Filho por meio de blasfêmias. O nome de Jesus deve ser pronunciado com fé, amor e reverência, pois nele encontramos salvação e esperança.
Penitência e reconciliação
A mensagem também faz referência às colheitas destruídas e ao sofrimento provocado pela fome, realidades conhecidas pela população rural daquela época. Entretanto, junto da advertência encontra-se uma promessa de esperança e misericórdia para aqueles que se converterem.
La Salette não deve ser apresentada como uma mensagem destinada a provocar medo. Seu verdadeiro sentido é o chamado à reconciliação com Deus e com os irmãos.
O significado do crucifixo de La Salette
O crucifixo visto sobre o peito de Nossa Senhora tornou-se um dos principais símbolos da devoção saletina.
Ao lado da cruz estavam um martelo e uma tenaz. Na tradição de La Salette, o martelo representa os pecados que continuam ferindo e crucificando Cristo. A tenaz simboliza a conversão, o amor e as boas obras que retiram os cravos e consolam o Coração de Jesus.
As rosas presentes na imagem recordam a beleza, a ternura e a esperança que permanecem mesmo em meio às lágrimas.
Assim, a imagem de Nossa Senhora da Salette reúne sofrimento e esperança: Maria chora pelos pecados de seus filhos, mas permanece iluminada pela Cruz de Cristo, da qual brotam o perdão e a salvação.
O reconhecimento da aparição pela Igreja
Depois de uma investigação que durou cinco anos, o bispo de Grenoble, Dom Philibert de Bruillard, reconheceu oficialmente a autenticidade da aparição em 19 de setembro de 1851.
O bispo declarou que o acontecimento apresentava características de verdade e que os fiéis tinham razões para nele acreditar. A história desse reconhecimento é apresentada pelo Santuário oficial de Nossa Senhora da Salette, na França.
Como toda aparição reconhecida, La Salette não acrescenta uma nova verdade ao Evangelho. Sua missão é recordar e ajudar os fiéis a viverem com maior fidelidade aquilo que Cristo já ensinou.
Uma mensagem de esperança e reconciliação
Ao dirigir-se aos Missionários de Nossa Senhora da Salette, São João Paulo II afirmou que “La Salette é uma mensagem de esperança”.
O Papa destacou que as rupturas não são irreparáveis e que sempre é possível arrepender-se, acolher o perdão de Deus e colaborar na construção de uma humanidade reconciliada. Também apresentou Maria sob o título de Nossa Senhora Reconciliadora. (Santa Sé)
Essa esperança torna a mensagem de La Salette profundamente atual. Em um mundo marcado por divisões, indiferença, conflitos familiares e afastamento da fé, Nossa Senhora continua apontando o caminho da oração, da penitência, do perdão e do retorno a Jesus.
Como viver hoje a mensagem de La Salette
Podemos acolher concretamente o chamado de Nossa Senhora:
- reservando diariamente um momento para a oração;
- participando da Santa Missa aos domingos;
- buscando o sacramento da Reconciliação;
- pronunciando o nome de Deus com respeito;
- perdoando aqueles que nos feriram;
- rezando pelas pessoas afastadas da fé;
- consolando os que sofrem;
- trabalhando pela paz e pela união dentro de nossas famílias.
As lágrimas de Nossa Senhora da Salette não nos conduzem ao medo, mas à responsabilidade. Elas nos perguntam se estamos dispostos a consolar o Coração de Jesus por meio de uma vida verdadeiramente cristã.
Os videntes de La Salette: fotografias, segredos e o que aconteceu com eles
Existem fotografias de Maximin e Mélanie?
Não é conhecida uma fotografia comprovadamente feita no dia da aparição, em 19 de setembro de 1846. Naquele tempo, a fotografia ainda era uma novidade: o processo do daguerreótipo havia sido apresentado publicamente em 1839, apenas sete anos antes. Além disso, Maximin e Mélanie eram crianças pobres que trabalhavam como pastores numa região montanhosa e isolada dos Alpes franceses.
Existe uma fotografia frequentemente atribuída ao ano de 1850, na qual os dois aparecem juntos, aproximadamente quatro anos depois da aparição. Entretanto, como a fonte que preserva essa imagem não identifica o fotógrafo nem o arquivo original, o mais correto é apresentá-la como “fotografia atribuída a 1850”, e não como um registro definitivamente comprovado.
Também existem retratos posteriores. Um dos mais bem documentados mostra Mélanie Calvat aos 72 anos. A imagem foi publicada em uma obra de 1912, encontra-se preservada no Wikimedia Commons e está em domínio público.
Nossa Senhora confiou segredos aos videntes?
Além da mensagem pública destinada a todo o povo, cada uma das crianças declarou ter recebido de Nossa Senhora um segredo pessoal e diferente. Maximin e Mélanie não revelaram seus segredos um ao outro.
Em julho de 1851, a pedido da autoridade eclesiástica, os dois escreveram separadamente o que lhes havia sido confiado. Os documentos foram lacrados e enviados ao papa Pio IX. Os manuscritos originais permaneceram guardados nos arquivos do Vaticano e foram reencontrados em 1999 pelo padre Michel Corteville.
Em linhas gerais, os textos de 1851 falam sobre o enfraquecimento da fé, crises na Igreja e na sociedade, perseguições, sofrimentos e a necessidade de conversão. O texto escrito por Mélanie apresenta uma linguagem mais apocalíptica, mencionando castigos, fome, perseguição aos cristãos e o Anticristo. Essas passagens devem ser lidas com prudência, sem interpretações sensacionalistas ou tentativas de marcar datas para acontecimentos futuros.
É importante não confundir os breves manuscritos de 1851 com uma versão muito mais extensa publicada por Mélanie em 1879. Essa publicação posterior acrescentava numerosas revelações e profecias e provocou grandes controvérsias. Uma edição posterior da obra foi incluída no Index em 1923. Por isso, a versão longa não deve ser apresentada como se fosse o “segredo oficialmente aprovado de La Salette”.
A Igreja reconheceu a aparição e a mensagem pública de oração, penitência, respeito ao nome de Deus, santificação do domingo e conversão. Isso não significa uma aprovação automática de todos os textos e interpretações que surgiram posteriormente.
O Catecismo da Igreja Católica recorda que as revelações privadas, mesmo quando reconhecidas pela autoridade da Igreja, não pertencem ao depósito da fé e não completam a Revelação definitiva de Cristo. Sua finalidade é ajudar os fiéis a viverem mais plenamente o Evangelho em determinada época da história.
O que aconteceu com Maximin Giraud?
Depois da aparição, Maximin passou a ser constantemente interrogado e observado. Sua vida adulta foi marcada por mudanças, dificuldades financeiras e diferentes tentativas de estudo e trabalho. Passou pelo seminário, iniciou estudos de medicina e serviu por alguns meses entre os Zouavos Pontifícios.
Em 1866, publicou a obra Ma profession de foi sur l’apparition de Notre-Dame de La Salette, na qual respondeu às acusações feitas contra os videntes e reafirmou publicamente seu testemunho.
Maximin retornou posteriormente à sua cidade natal, Corps, onde faleceu em 1º de março de 1875, aos 39 anos. Apesar das dificuldades e das controvérsias que acompanharam sua vida, permaneceu fiel ao testemunho essencial da aparição.
O que aconteceu com Mélanie Calvat?
Mélanie também teve uma existência marcada por mudanças. Viveu em diferentes comunidades religiosas na França, na Inglaterra e na Itália, utilizando o nome de Irmã Maria da Cruz. Entretanto, sua trajetória religiosa não foi simples nem permaneceu vinculada definitivamente a uma única congregação.
Nos últimos anos de sua vida, Mélanie tornou-se uma figura controversa principalmente por causa das versões posteriores e ampliadas do segredo. Apesar disso, nunca abandonou seu testemunho de que havia encontrado, ao lado de Maximin, a “Bela Senhora” na montanha de La Salette.
Mélanie faleceu em Altamura, na Itália, em dezembro de 1904, aos 73 anos, e foi sepultada naquela cidade.
Maximin e Mélanie não foram oficialmente beatificados ou canonizados. Portanto, o modo correto de apresentá-los é como os videntes, pastorinhos ou testemunhas da aparição de Nossa Senhora de La Salette.
As vidas dos dois não foram tranquilas depois do acontecimento de 1846. Sobre eles recaiu, ainda muito jovens, o peso da fama, dos interrogatórios e das disputas em torno da aparição. Em 1855, o bispo de Grenoble resumiu o lugar que lhes cabia na história de La Salette: “A missão dos pastores terminou; começa a missão da Igreja.”
Oração a Nossa Senhora da Salette
Ó Nossa Senhora da Salette,
Mãe dolorosa e Reconciliadora,
que aparecestes chorando
para chamar vossos filhos de volta a Deus,
olhai com misericórdia para nós.
Alcançai-nos de vosso Filho Jesus
um coração verdadeiramente convertido,
fidelidade à oração,
amor à Santa Missa
e profundo respeito pelo santo nome de Deus.
Ajudai-nos a reconhecer nossas faltas,
a procurar o perdão do Senhor
e a perdoar aqueles que nos feriram.
Consolai as famílias divididas,
os enfermos, os aflitos
e todos aqueles que se afastaram da fé.
Enxugai as lágrimas dos que sofrem
e fazei de nós instrumentos
de reconciliação, paz e esperança.
Nossa Senhora da Salette,
conduzi-nos ao Coração de Jesus
e rogai sem cessar por nós
que recorremos a vós.
Amém.
Fontes consultadas
- "Santuário oficial de Nossa Senhora de La Salette"
- "Missionários de Nossa Senhora de La Salette — cronologia histórica"
- "Academia Marial do Santuário Nacional — Nossa Senhora de La Salette"
- "Retrato histórico de Mélanie Calvat — Wikimedia Commons"








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