A Assunção de Nossa Senhora é uma das celebrações marianas mais antigas e importantes da Igreja. Nela professamos que, terminado o curso de sua vida terrena, a Virgem Maria foi elevada por Deus à glória do Céu em corpo e alma.
Essa verdade, celebrada durante séculos pela liturgia e transmitida pela Tradição da Igreja, recebeu uma definição solene em 1º de novembro de 1950, quando o Papa Pio XII proclamou o dogma da Assunção de Nossa Senhora.
Muito antes dessa definição, porém, os cristãos já meditavam sobre o destino glorioso da Mãe de Deus. Entre os grandes testemunhos dessa fé encontra-se São João Damasceno, Padre e Doutor da Igreja, cujas homilias ajudaram a expressar a tradição cristã sobre a Dormição e a glorificação de Maria.
Quem foi São João Damasceno?
São João Damasceno nasceu em uma família cristã de Damasco, provavelmente na segunda metade do século VII.
Por volta do ano 700, abraçou a vida monástica no Mosteiro de São Sabas, próximo de Jerusalém, onde se dedicou à oração, à vida ascética, ao estudo da fé e à produção de numerosas obras teológicas.
Ele viveu durante um período marcado pela controvérsia iconoclasta, quando a legitimidade da veneração das imagens sagradas era duramente contestada.
São João Damasceno tornou-se um dos grandes defensores dos ícones, explicando que os cristãos não adoram a matéria da imagem. A veneração dirige-se à pessoa nela representada, enquanto a adoração pertence somente a Deus.
Sua contribuição foi tão importante que o Papa Leão XIII o proclamou Doutor da Igreja Universal em 1890. Sua memória litúrgica é celebrada em 4 de dezembro.
São João Damasceno também deixou belas homilias dedicadas à Virgem Maria, especialmente ao mistério de sua Dormição.
• Eis 3 trechos de São João Damasceno, sobre o mistério da ressurreição e Assunção de Nossa Senhora:
“Quando a alma da Santíssima Virgem se lhe separou do puríssimo corpo, os Apóstolos presentes em Jerusalém, deram-lhe sepultura em uma gruta do Getsêmani. Tradição antiquíssima conta que, durante três dias, se ouviu doce cantar dos Anjos. Passados três dias não mais se ouviu o canto. Tento entretanto chegado também Tomé e desejando ver e venerar o corpo, que tinha concebido o Filho de Deus, os Apóstolos abriram o túmulo mas não acharam mais vestígio do corpo imaculado de Maria, Nossa Senhora. Encontraram apenas as mortalhas, que tinham envolvido o santo corpo, e perfumes deliciosos enchiam o ambiente. Admirados de tão grande milagre, tornaram a fechar o sepulcro, convencidos de que Aquele que quisera encarnar-se no seio puríssimo da Santíssima Virgem, preservara também da corrupção este corpo virginal e o honrara pela gloriosa assunção ao céu, antes da ressurreição geral”
"Maria não conheceu os tenebrosos caminhos que levam ao inferno, mas disposto para ela um caminho reto, plano e seguro em direção ao céu. Com efeito, se Cristo, que é a verdade e a vida, disse: Onde eu estou, ali estará também meu servidor (Jo 12, 26), com muito mais razão, não devia morar com Ele sua própria Mãe? Assim como ela Lhe deu à luz sem dor, assim também sua morte esteve isenta de dores. Funesta é a morte dos pecadores (Sal 34, 22); daquela, ao contrário, em quem foi vencido o pecado, que é o aguilhão da morte, não teremos de dizer que a morte é o princípio de uma vida superior e indefectível? Se em verdade é preciosa a morte dos santos do Senhor Deus dos exércitos, muito mais é o glorioso translado da Mãe de Deus" (Homilia da Natividade de Maria, 3).
"É aqui que o Criador de todas as coisas recebe em suas mãos a alma sacrossanta que emigra daquele corpo, que é o receptáculo em que habitou o Senhor! Com razão quis Ele prestar esta honra àquela que, embora por natureza fosse sua escrava, por uma altíssima e inefável decisão de sua bondade, ao assumir verdadeiramente nossa carne, a fez sua mãe... Os coros dos anjos, segundo cremos, contemplaram, oh" Virgem, tua saída deste mundo, por eles ansiada..."
"Os anjos e arcanjos te transladaram. Ante teu translado os espíritos imundos, que voam pelo ares, se estremeceram de espanto. Com tua passagem o ar ficou abençoado e tudo foi santificado. O céu, com gozo recebeu tua alma. As potestades celestiais saíram ao teu encontro, cantando hinos sagrados com festiva alegria e expressando-se com estas ou parecidas palavras: Quem é esta que sobe toda pura, surgindo como a aurora, formosa como a lua e brilhante com o sol? Oh! que formosa és toda cheia de suavidade! O Rei te introduziu em sua câmara, onde as potestades te escoltam, os principados te abençoam, os tronos entoam cânticos em tua honra, os querubins se maravilham e os serafins proclamam teus louvores, já que, por divina disposição, foste constituída verdadeira Mãe do Senhor" (Homilia I Da Assunção de Maria, 1.11)
Dormição e Assunção de Nossa Senhora
Na tradição cristã oriental, o término da vida terrena de Maria é frequentemente chamado de Dormição da Mãe de Deus.
A palavra “dormição” exprime a serenidade da passagem de Maria desta vida para a glória eterna. No Ocidente, a celebração recebeu principalmente o nome de Assunção de Nossa Senhora.
Os dois termos estão relacionados, mas destacam aspectos diferentes: a Dormição recorda o término da vida terrena de Maria, enquanto a Assunção proclama sua glorificação em corpo e alma no Céu.
A definição dogmática não determinou se Nossa Senhora passou ou não pela morte. Pio XII utilizou uma fórmula cuidadosa: “terminado o curso de sua vida terrena”.
Portanto, o centro do dogma não está nos detalhes sobre os últimos momentos de Maria, mas na certeza de sua glorificação completa junto de Deus.
O testemunho de São João Damasceno
São João Damasceno é considerado um dos grandes anunciadores da tradição sobre a Assunção.
Em suas homilias, ele contempla a profunda união entre Maria e Jesus. Aquela que recebeu o Filho de Deus em seu ventre, acompanhou sua missão e permaneceu fiel junto à Cruz não poderia ficar separada dele na glória.
Ao apresentar os testemunhos dos Padres da Igreja na constituição apostólica Munificentissimus Deus, Pio XII cita diretamente São João Damasceno e resume seu pensamento com uma palavra que se repete: “Convinha”.
Convinha que o corpo daquela que conservou a virgindade no parto fosse preservado da corrupção.
Convinha que aquela que trouxe em seu ventre o Criador encarnado habitasse junto dele na glória.
Convinha que a Mãe de Deus recebesse aquilo que pertencia ao Filho e fosse honrada por todas as criaturas como Mãe e serva do Senhor.
São João Damasceno não criou o dogma da Assunção. Ele recebeu uma fé já celebrada pela comunidade cristã e ajudou a explicá-la com profundidade teológica e beleza espiritual.
A tradição do túmulo vazio de Maria
Antigas tradições cristãs relatam que os Apóstolos acompanharam os últimos momentos da vida terrena de Nossa Senhora e depositaram seu corpo em um túmulo.
Segundo essas narrativas, quando o sepulcro foi posteriormente aberto, o corpo de Maria já não se encontrava ali. Algumas versões mencionam a presença de perfumes e cânticos de anjos.
Esses elementos pertencem às tradições piedosas transmitidas ao longo dos séculos. Eles não fazem parte da fórmula do dogma e não devem ser colocados no mesmo nível daquilo que a Igreja definiu solenemente.
A verdade de fé professada pelos católicos é esta: Maria, terminado o curso de sua vida terrena, foi elevada por Deus em corpo e alma à glória celestial.
Os detalhes sobre o túmulo, a presença dos Apóstolos e a maneira como ocorreram seus últimos momentos pertencem à tradição cristã antiga e ajudam a compreender como essa fé foi sendo expressa pelas primeiras comunidades.
A Assunção é diferente da Ascensão de Jesus
A palavra Ascensão é utilizada para Nosso Senhor Jesus Cristo porque Ele subiu ao Céu por seu próprio poder divino.
Quando falamos de Maria, utilizamos a palavra Assunção, pois ela foi elevada por Deus. A glorificação de Nossa Senhora é inteiramente fruto da graça divina e da vitória de Cristo sobre o pecado e a morte.
Maria não ocupa o lugar de Jesus e não possui uma glória independente dele. Tudo o que ela recebeu procede de Deus e manifesta o poder da Redenção realizada por seu Filho.
Por isso, a Assunção de Nossa Senhora não afasta os cristãos de Cristo. Ao contrário, mostra a plenitude daquilo que a graça de Cristo pode realizar na criatura humana.
A definição do dogma da Assunção
No dia 1º de novembro de 1950, durante o pontificado do Papa Pio XII, a Igreja proclamou solenemente o dogma da Assunção por meio da constituição apostólica Munificentissimus Deus.
A definição não criou uma crença nova. Ela confirmou solenemente uma verdade professada pela Igreja, manifestada na liturgia e ensinada ao longo dos séculos por Padres, Doutores, bispos e fiéis.
Pio XII declarou que Maria, após completar sua vida terrena, “foi levada em corpo e alma ao céu”.
O Papa também recordou o testemunho da liturgia, das igrejas dedicadas à Assunção, da piedade dos fiéis e dos ensinamentos dos Padres da Igreja — entre eles, de maneira especial, São João Damasceno.
O que a Igreja ensina sobre a Assunção?
O Catecismo da Igreja Católica ensina que a Assunção de Maria é uma participação singular na Ressurreição de seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos cristãos.
Maria já participa, em corpo e alma, da glória prometida por Deus a todos aqueles que permanecerem unidos a Cristo.
Por isso, a Assunção não é apenas uma honra concedida à Mãe de Jesus. É também uma mensagem de esperança para toda a humanidade.
Em Maria contemplamos antecipadamente aquilo que a Igreja espera alcançar: a vida eterna e a glorificação completa junto de Deus.
Um sinal de esperança para os cristãos
Vivemos em um mundo no qual o corpo humano frequentemente é tratado como objeto, mercadoria ou realidade sem valor eterno.
A Assunção recorda que a pessoa humana foi criada por Deus e chamada à vida plena. Nosso destino não é o desaparecimento definitivo, mas a ressurreição e a comunhão eterna com o Senhor.
Maria, elevada ao Céu, torna-se sinal de esperança segura para o povo de Deus ainda peregrino.
Sua glorificação anuncia a vitória de Cristo e confirma que a morte não possui a última palavra.
Nossa Senhora da Assunção, rogai por nós!
Ao celebrarmos a Assunção de Nossa Senhora, elevemos o coração às realidades do Céu e peçamos a graça de seguir o exemplo de fé, humildade e obediência da Mãe de Jesus.
Que Maria nos ajude a permanecer unidos a Cristo durante nossa caminhada terrena e nos recorde constantemente o destino eterno para o qual fomos criados.
Nossa Senhora da Assunção, rogai por nós!
Leia também
Para conhecer mais profundamente a solenidade, seus fundamentos bíblicos, a definição do dogma e seu significado para a fé cristã, leia:
Assunção de Nossa Senhora: Maria elevada ao Céu em corpo e alma
Leia também o artigo dedicado às antigas tradições sobre os últimos momentos da vida de Maria:
Assim morreu a Virgem Maria de acordo com São João Damasceno


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