De vítimas a algozes: a cadeia de abusos nos Legionários de Cristo - Devoção e Fé - Blog Católico

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

De vítimas a algozes: a cadeia de abusos nos Legionários de Cristo


Alguns sacerdotes acusados de pedofilia foram primeiro vítimas de abusos e depois se tornaram cúmplices, de acordo com uma dinâmica de poder descrita por denunciantes e ex-legionários

GEORGINA ZEREGA

Cidade Do México - 13 ENE 2020

Em maio de 2019, quando Ana Lucía Salazar denunciou publicamente o padre mexicano Fernando Martínez por ter abusado dela em uma escola dos Legionários de Cristo em Cancún, ela ainda não sabia que ele também havia sido vítima de abusos. Dois meses antes, quando a Justiça italiana condenou o ex-padre mexicano Vladimir Reséndiz por abusar de duas crianças, alguns de seus antigos companheiros da Legião descobriram que, antes de ser algoz, ele tinha sido vítima de abusos. “Faz parte da metodologia da Legião: preparar-te para o abuso, abusar de você e tornar-te cúmplice”, diz Erick Escobar, ex-legionário que deixou esse movimento para iniciar uma luta contra os casos de pedofilia.

No final de dezembro, a Legião de Cristo, uma das congregações mais poderosas da Igreja Católica, surpreendeu o mundo quando divulgou um relatório admitindo 175 casos de abusos de menores dentro da ordem fundada pelo sacerdote mexicano Marcial Maciel em 1941, grande parte deles cometidos por seu próprio fundador, e desde o momento da fundação. No entanto, o mais revelador não foi a constatação das vexações denunciadas por diferentes vítimas ao longo de oito décadas, mas o que o relatório deixava entrever: que a pedofilia dentro da Legião não era o resultado da perversão de alguns padres, mas parte de uma dinâmica fundacional que alcançava todos os níveis e garantia espaços de poder àqueles dispostos a participar ou calar a boca.

“É emblemático que 111 dos menores abusados ​​tenham sido vítimas de Maciel, de uma de suas vítimas ou de uma vítima de suas vítimas”, diz o relatório da Legião, que se refere explicitamente a “cadeias de abuso”. Para entender os elos dessas cadeias que remontam principalmente ao fundador, o ex-legionário Escobar fala das vítimas de abuso em termos de gerações. “Há vítimas de primeira geração, de segunda e de terceira”, comenta.

José Antonio Pérez Olvera, um advogado mexicano de 80 anos que esteve entre os primeiros legionários a denunciar abertamente Maciel (em 1997), explica que aqueles que sofreram abuso por parte dele costumavam ser recompensados ​​com cargos de poder. “Havia uma característica comum às vítimas de Maciel que não falavam, e era que ele as colocava como superiores das casas ou seminários da Legião”, diz. Foi o caso de Fernando Martínez, de quem Pérez Olvera se lembra pelos abusos “excessivos” que sofreu nas mãos do fundador da ordem durante os anos 50, em um seminário em Roma.

Martinez foi vítima e se tornou algoz. As acusações de pedofilia que acumulou ao longo de sua jornada dentro da Legião (uma investigação interna reconhece pelo menos três denúncias entre 1969 e 1990 em diferentes partes do México, uma delas por abusar de um menino de quatro a seis anos) não o impediram de continuar ocupando posições de poder. Seu último cargo foi no Instituto Cumbres, em Cancún, onde passou a diretor em 1991. Dois anos depois, a Legião o transferiu para Salamanca, na Espanha, depois que algumas mães o acusaram de abusar de suas filhas.

“Eles sabiam que se estuprassem nada lhes aconteceria porque tinham o respaldo de toda a instituição”, explica Ana Lucía Salazar, apresentadora de rádio mexicana, 36 anos, que em maio do ano passado, quase três décadas depois dos fatos, relatou em redes sociais que tinha sido estuprada por Martinez quando era estudante do Instituto Cumbres em Cancun. Sua acusação revelou o caso publicamente, já que até então havia sido tratado internamente na congregação. Quando tuitou o nome e a foto do padre, Salazar soube por ex-companheiros de Martinez que ele também tinha sido vítima de pedofilia. "Alguém que sofreu abuso de Maciel abusa de mim", disse ela. “Isso aparece em uma das cartas dos primeiros a denunciar. Eles são vítimas da década de 40, nós, da de 90.”

A psicóloga mexicana Amaya Torre, especializada em abuso sexual, explica que a pedofilia pode ser transgeracional, sobretudo quando ocorre em certas condições. “Repete-se de geração em geração, porque o adulto é abusado, não cuidaram dele e ele não sabe como cuidar dos outros”, diz. Entre os fatores que levam a reproduzir esse comportamento, o “grande câncer "é o segredo, o silêncio, afirma: “Se não se fala disso, a vítima normaliza, acredita que é assim que o mundo funciona e, quando cresce, faz o mesmo". Assim funcionava o mundo literalmente dentro da Legião, que até alguns anos atrás obrigava seus membros a fazerem votos em que se comprometiam a “nunca criticar de fora atos da administração ou a pessoa de qualquer diretor ou superior pela palavra, escritos ou qualquer outro meio”, segundo explica o sociólogo especializado em religiões Bernardo Barranco, em artigo publicado em 2007.

O rompimento desse silêncio nos últimos anos permitiu a ex-legionários desvendar as cadeias de abuso e cumplicidade dentro da congregação. Isso aconteceu em março do ano passado, quando a Justiça italiana condenou o padre mexicano Vladimir Reséndiz a sete anos de prisão por abusar de duas crianças. Cristian Borgoño, um ex-legionário que foi ordenado sacerdote junto com ele, lembra que, após a sentença, alguns ex-companheiros lhe contaram que Reséndiz também havia sido abusado por um superior enquanto estudava no seminário de Ajusco, na Cidade do México, no início dos anos 90.

Borgoño é um dos fundadores do Legioleaks, um grupo do Facebook criado por ex-legionários para denunciar casos de abuso sexual dentro da congregação e discutir a pedofilia clerical. Borgoño atribuiu os abusos sofridos por Reséndiz ao padre espanhol José María Sabín, reitor por 17 anos da Universidade Anahuac Mayab, de Yucatán, uma das instituições da ampla rede educacional da congregação, e que no final de 2014 anunciou repentinamente que abandonaria a Legião de Cristo e o sacerdócio e retornou à a Espanha, sem explicar os motivos.

A explicação talvez possa ser encontrada na Justiça de outro país. Em 2016, um ex-seminarista entrou com uma ação por abuso sexual nos Estados Unidos contra José María Sabín, Marcial Maciel e Luis Garza Medina, um padre mexicano que era considerado o braço direito de Maciel e arquiteto da poderosa estrutura financeira da Legião de Cristo. O abuso denunciado na ação norte-americana, à qual EL PAÍS teve acesso, se situa no mesmo cenário e na mesma época em que Reséndiz tinha sofrido abusos, segundo seus ex-colegas: o seminário de Ajusco no início da década 90. Segundo o documento, antes de ir à justiça, o demandante relatou o que aconteceu à própria Legião, em 2014: o mesmo ano em que Sabín abandonou tudo e partiu para seu país. Os Legionários foram consultados por este jornal sobre as denúncias contra seus membros antigos e atuais, mas não responderam à petição.

Nesta quarta-feira, 8 de janeiro, a Justiça italiana confirmou a sentença contra o ex-legionário mexicano Vladimir Reséndiz por violação de dois menores em 2008, quando era diretor de um seminário da Legião de Cristo no norte da Itália. “Quando um padre abusado tem uma posição de poder, ele repete o mesmo padrão e abusa daqueles que estão sob sua responsabilidade, como seus superiores abusaram dele”, diz Escobar enquanto analisa os rostos de seminaristas em fotografias antigas. “Na Legião, eles te preparam para ser abusado.”

UMA ENXURRADA DE DENÚNCIAS

Todas as noites, quando as luzes do seminário de Ajusco, na Cidade do México, se apagavam, o padre Antonio Rodríguez Sánchez andava entre as camas dos adolescentes, recorda Bernardo –nome fictício. Depois de algumas voltas, com um roçar na cabeça indicava ao escolhido que deveria acompanhá-lo até seu quarto. Bernardo via tudo de sua cama, mas não sabia o que acontecia depois, até a noite em que sentiu que lhe tocavam na cabeça. Era 1996 e tinha 12 anos quando o reitor da escola o estuprou, de acordo com a cena que descreve em uma denúncia que enviou às autoridades da Igreja mexicana em dezembro, à qual o EL PAÍS teve acesso. A lembrança daquela noite o seguiu até Salamanca, na Espanha, onde continuou seus estudos. Lá, de acordo com sua denúncia, revelou a seu superior, o então noviço William Brock, o que tinha acontecido, mas o que recebeu em troca foi uma passagem para o México e 100 dólares: os legionários o removeram da ordem e o enviaram de volta. A revolta de algumas vítimas antes do relatório divulgado pela Legião de Cristo em dezembro, que o consideram insuficiente e uma tentativa de maquiar os fatos, provocou uma enxurrada de novas denúncias – como a de Bernardo– que estão chegando à Nunciatura, segundo confirmou a este jornal o representante do Vaticano no México, Franco Coppola. Os nomes de Rodríguez Sánchez e Brock, segundo Coppola, são dois de uma lista de padres a serem investigados.

Fonte: El País

Fernando Martínez Suárez 
(Foto: Twitter @Ana1uSalazar)

Vaticano escondeu pedofilia do fundador dos Legionários de Cristo por 63 anos

Marcial Maciel fundou a Legião de Cristo 
em 1941

Prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada reconhece que a sede pontifícia tinha desde 1943 documentos sobre as condutas de Marcial Maciel
  
João Paulo II recebe Marcial Maciel no Vaticano, em 30 de novembro de 2004. TONY GENTILE (REUTERS)

JUAN G. BEDOYA  /  Madri  2 ENE 2019

O prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada, o cardeal João Braz de Aviz, reconhece agora que o Vaticano tinha desde 1943 documentos sobre a pedofilia do fundador dos Legionários de Cristo, Marcial Maciel. O religioso foi investigado entre 1956 e 1959. “Quem o encobriu era uma máfia, eles não eram Igreja”, disse ao ser entrevistado pela revista católica Vida Nova. João Braz esteve em Madri há um mês para encerrar a assembleia geral da Confederação Espanhola de Religiosos (Confer). “Tenho a impressão de que as denúncias de abusos crescerão, porque só estamos no começo. Encobrimos isso por 70 anos e foi um enorme erro”, afirma.

Os Legionários de Cristo renascem de suas cinzas, com uma nova estrutura, após 12 anos de expiação e dez desde a morte de seu fundador, o padre Marcial Maciel, amigo de vários papas e o maior predador sexual na história recente da Igreja. Apresentado durante anos por João Paulo II como apóstolo da juventude e mimado por incontáveis bispos e cardeais, muitos deles espanhóis, Bento XVI o penalizou em 2006, meses depois da morte do Pontífice polonês, a se retirar ao México para o resto de sua vida, dedicado “à penitência e à oração”. Morreu sem pedir perdão dois anos mais tarde, quando uma comissão de investigação já havia revelado sem sombra de dúvidas suas atividades criminosas e uma vida de crápula tolerada pelo Vaticano.

O EL PAÍS publicou em 2006 que o fundador legionário havia sido investigado entre outubro de 1956 e fevereiro de 1959 por encargo do cardeal Alfredo Ottaviani, à época o grande inquisidor romano. Maciel estudou na Universidade Pontifícia de Comillas, à época com sede na Cantábria, de onde foi expulso com alguns colegas sem que os jesuítas tomassem medidas adicionais. A inspeção do Vaticano foi supervisionada pelo claretiano basco e futuro cardeal Arcadio Larraona. Durante esse tempo, Maciel foi suspenso como superior geral, e expulso de Roma. Larraona enviou seus inspetores ao seminário de Ontaneda, entre outros centros. Não adiantou nada e Maciel voltou a cometer seus crimes, com mais poder. Ratzinger também não agiu em 1999, apesar das evidências depositadas sobre sua mesa de presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, o Santo Ofício da Inquisição do passado.

As denúncias de suas incontáveis vítimas, que mais tarde ganharam a companhia das mulheres com as quais o padre Maciel teve filhos, ficaram mais fortes até se tornarem insuportáveis ao Vaticano. Ninguém tomou medidas. “Não se processa um amigo do Papa”, disseram os que deveriam intervir, em primeiro lugar o cardeal Josep Ratzinger, hoje Papa emérito. Maciel também era seu amigo, além de confessor do Papa polonês em várias ocasiões. “Esperavam que Deus lhes retirasse do atoleiro com a morte de João Paulo II e a do acusado”, disse em 1999 uma de suas vítimas e denunciante, Alejandro Espinosa, que teve a infelicidade de ser presa predileta do fundador legionário no frio casarão do seminário de Ontaneda (Cantábria).

Marcial Maciel Degollado (Cotija, Estado de Michoacán, México, 1920-2008), era cotado para santo até que vários dos seminaristas dos quais abusou se uniram para clamar desesperadamente ao Vaticano. “É um guia eficaz da juventude”, dizia sobre Maciel João Paulo II quando as denúncias já eram públicas. Apenas uma semana antes de Ratzinger notificar a abertura de uma investigação, o célebre fundador festejou seus 60 anos de sacerdócio em um ato do qual participaram o Papa e seu secretário de Estado, cardeal Angelo Sodano.

Maciel chegou à Espanha no final dos anos 40 do século passado para estender sua função, protegido pelo à época ministro das Relações Exteriores do ditador Francisco Franco, o democrata-cristão Alberto Martín Artajo. Vinha avalizado pelo Papa Pio XII, que o recebeu em 1941, logo após fundar, com apenas 21 anos, os Legionários de Cristo e o Regnum Christi, inicialmente com o nome de Missionários do Sagrado Coração e da Virgem das Dores.

Ricardo Blázquez, cardeal arcebispo de Valladolid e presidente da Conferência Episcopal Espanhola (CEE), foi um dos cinco inspetores encarregados em 2010 por Bento XVI de depurar a organização, na qual fizeram carreira outros pedófilos junto ao fundador. Algumas das vítimas acreditaram à época que o Papa eliminaria os Legionários da maneira como funcionavam, para refundá-los com outro carisma. Assim declarou ao EL PAÍS o sacerdote Félix Alarcón, ex-dirigente legionário em vários países, ele mesmo vítima de abusos quando era criança. “O Vaticano recebeu 240 documentos que evidenciavam que a situação era conhecida muito antes do reconhecimento de que era conhecida. Nossa denúncia é de 1988, e enquanto Ratzinger era cardeal, essa terrível batata quente era passada de um lado para o outro, sem que nenhuma medida fosse tomada. Acho que a Legião tal como a entendíamos deveria ser eliminada”, disse em sua casa em Madri.

Existiu um antecedente, com o Vaticano na primeira fila de culpa e penitência por encobrir uma rede de pedófilos nas Escolas Pias do aragonês são José de Calasanz, fundador da Ordem de Clérigos Regulares Pobres, conhecidos agora como esculápios. Um dos pedófilos, o padre Stefano Cherubini, teve tanto poder de encobrimento que chegou a ser superior da ordem, derrubando o fundador. Os esculápios foram punidos com a extinção e Calasanz morreu aos 91 anos em Roma ainda em desgraça. Oito anos depois, a congregação foi reabilitada. O escândalo não impediu que Calasanz fosse elevado aos altares. Em 1948 foi declarado patrono universal das Escolas cristãs por Pio XII.

O MOVIMENTO CRESCEU UM 3% EM SUA TRAVESSIA DO DESERTO

O conhecimento público dos escândalos de pedofilia dentro dos Legionários de Cristo, até então um dos grandes movimentos do novo catolicismo, fez com que o Vaticano promovesse, por fim, a chamada “tolerância zero”, o lema com o qual o cardeal alemão Ratzinger ganhou o pontificado. Não foi ouvido e acabou renunciando ao cargo, em um gesto sem precedentes em séculos.

A punição a Marcial Maciel e sua organização foi rigorosa, mas não a extinguiu. Entre outras exigências, além da proscrição do fundador, os legionários deixariam de comemorar as diversas efemérides de Maciel; deveriam deixar de chamá-lo “nosso pai” e ignorar seu nome em público; eliminar de seus colégios todas as fotografias em que ele estivesse sozinho e com João Paulo II, e deixar de vender seus livros. Houve uma exceção por respeito à “liberdade pessoal”: quem desejasse conservar “de maneira privada” alguma fotografia do fundador, ler seus escritos e escutar suas conferências, poderia fazê-lo, porém discretamente.

Com esse longo processo de purgação e depuração, e eliminados os colaboradores mais próximos de Maciel, o Vaticano acaba de aprovar os novos estatutos da Legião, que a reconhecem “canonicamente como Sociedades de Vida Apostólica de direito pontifício” e como “uma federação formada e governada colegiadamente entre os Legionários de Cristo, as Consagradas e os Laicos Consagrados, com voto consultivo dos laicos, que se associarão individualmente à Federação”. Seu órgão de governo se chamará Colégio diretivo.

Longe de perder associados, durante a crise a Legião cresceu 3%. Hoje são 21.300 membros seculares, 526 consagrados, 63 laicos consagrados, 1.537 legionários de Cristo e 11.584 membros adolescentes em uma organização chamada ECYD. Em sua obra educativa (154 colégios, 5 academias internacionais, 14 universidades civis e quatros eclesiásticas), se formam 176.000 alunos.

Na Espanha, são responsáveis pelo santuário diocesano de Nossa Senhora de Sonsoles em Ávila e possuem seminários em Ontaneda (Cantábria) e Moncada (Valência). Também possuem a Universidade Francisco de Vitoria, em Pozuelo (Madri); a rede de colégios Everest e Cumbres; a organização Highlands; a rede de colégios Mão Amiga, e a agência de notícias Zenit.

Fonte: El País



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